Detetar a mastite em cabras numa fase precoce, antes de a doença se manifestar clinicamente, é o objetivo do projeto Udder.AI – Sistema Inteligente de Previsão de Mastites e Monitorização da Saúde Mamária em Cabras Leiteiras, que arrancou a 8 de outubro, nas instalações do More – Laboratório Colaborativo Montanhas de Investigação, em Bragança.
Nos próximos 36 meses, o consórcio vai desenvolver um sistema de baixo custo para apoiar a decisão veterinária e zootécnica, através de alertas preventivos, relatórios personalizados e indicadores de risco por animal. A solução combina sensores não invasivos, imagens térmicas e multiespectrais, modelos de inteligência artificial e validação clínica.
O projeto pretende responder às necessidades das pequenas e médias explorações de Trás-os-Montes, para as quais ainda não existem soluções comerciais de deteção precoce adaptadas a caprinos.
A mastite, uma inflamação da glândula mamária, quase sempre causada por uma infeção bacteriana, representa um desafio sanitário e económico para a caprinocultura leiteira. Para além das perdas de produção, a doença pode comprometer a qualidade do leite e exigir intervenções veterinárias. A deteção tardia dificulta, por sua vez, a gestão dos animais afetados. É neste problema que o Udder.AI concentra o seu trabalho: criar condições para identificar sinais de alerta numa fase precoce e apoiar decisões atempadas dos produtores e médicos veterinários.
O princípio em que o projeto assenta é simples: um úbere inflamado tende a apresentar uma temperatura mais elevada, e as câmaras térmicas podem captar essas diferenças antes de o problema ser visível a olho nu ou de ocorrerem alterações no leite. Os modelos de inteligência artificial vão ser treinados para reconhecer esses sinais e alertar o produtor em tempo útil.
O consórcio reúne quatro entidades com funções distintas. A Ruralbit lidera formalmente o consórcio e é responsável pelo desenvolvimento da plataforma digital. O More CoLAB desenvolve o protótipo de sensorização e os modelos preditivos, integrando dados de sensores e imagens termográficas e multiespectrais. A Universidade Politécnica de Bragança, através da Escola Superior Agrária (ESAB) e do Centro de Investigação de Montanha (CIMO), assegura a validação clínica e o desenvolvimento de um modelo multivariável. Por sua vez, a Associação Nacional de Caprinocultores da Raça Serrana (ANCRAS) conduzirá os ensaios nas explorações.
“O desafio não é só detetar a mastite mais cedo. É fazer com que o aviso chegue ao produtor de forma simples, no momento certo e a um custo que uma pequena exploração possa suportar. A plataforma digital tem de converter os dados recolhidos no terreno em alertas que um criador perceba de imediato e possa usar na decisão do dia a dia”, afirma Manuel Silveira, diretor da Ruralbit.
“Quando o aviso chega depois dos sinais clínicos, o prejuízo já começou e, num rebanho pequeno, cada animal conta. O trabalho do More CoLAB é ensinar os modelos a reconhecer, nas imagens e nos dados dos sensores, as alterações que antecedem a doença e testá-las em explorações reais antes de afirmar que funcionam. O objetivo é que o produtor passe a decidir com antecedência, em vez de reagir a um problema já instalado”, explica Khadija Sabiri, coordenadora técnico-científica do grupo Tecnologias Inteligentes (Tech) do More CoLAB.
“Para os criadores da raça Serrana, a saúde dos animais e a qualidade do leite são fundamentais para a sustentabilidade das explorações. A participação da ANCRAS neste projeto permitirá testar a tecnologia em condições reais, garantindo que as soluções desenvolvidas respondem às necessidades dos produtores. Queremos contribuir para uma ferramenta simples, acessível e útil, que ajude a identificar precocemente possíveis problemas de saúde e a tomar decisões atempadas, reduzindo perdas e promovendo o bem-estar animal”, afirma Fernando Pintor, secretário da direção da ANCRAS.
“A deteção precoce da mastite é fundamental para proteger a saúde e o bem-estar animal, garantir a qualidade do leite e reduzir as perdas económicas nas explorações. O contributo da Universidade Politécnica de Bragança será assegurar a validação científica e clínica da solução, garantindo que a tecnologia desenvolvida é fiável e está adaptada à realidade das explorações e às necessidades dos produtores. O objetivo é permitir identificar precocemente situações de risco e apoiar decisões mais informadas na gestão da saúde dos animais”, refere Quintas, docente e investigador da Universidade Politécnica de Bragança.
A cabra Serrana, raça autóctone que inspira o projeto, fornece o leite utilizado no fabrico do Queijo de Cabra Transmontano DOP. Este produto alcançou o primeiro lugar na categoria de queijos de cabra europeus do ranking TasteAtlas, com 4,4 pontos em 5. Num setor que depende da continuidade da atividade pecuária e da qualidade do leite, o Udder.AI pretende disponibilizar aos produtores informação que os ajude a decidir como intervir antes de a doença se tornar visível.
O projeto é cofinanciado pelo Norte 2030, Portugal 2030 e pela União Europeia, através do Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER).



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