Reportagem Fórum IFS Lisboa
O primeiro Fórum IFS Lisboa 2026 realizado em Portugal reuniu vários profissionais do setor alimentar para discutir segurança dos alimentos, certificação e gestão do risco. O controlo de fornecedores, a eficácia dos sistemas HACCP, a fiscalização e as novas exigências regulamentares estiveram entre os temas em destaque. A próxima edição está prevista para 2028.
A segurança dos alimentos exige mais do que procedimentos escritos e auditorias periódicas. Depende da capacidade das empresas para identificar riscos, corrigir falhas e garantir que as medidas de controlo funcionam no dia a dia. Esta foi uma das ideias centrais do Fórum IFS Lisboa 2026, que reuniu representantes da indústria, da distribuição, de entidades de certificação e de organismos públicos.
O encontro serviu para partilhar experiências e discutir os desafios que se colocam aos diferentes intervenientes da cadeia de abastecimento, num contexto de exigências crescentes em matéria de conformidade, rastreabilidade e proteção do consumidor.
Na abertura, Eunice Santos, da ÉS Segurança, destacou a importância de criar oportunidades de partilha entre profissionais. “É essencialmente um dia para partilhar conhecimentos, experiências e diferentes perspetivas sobre o presente e o futuro da segurança alimentar e da certificação”, afirmou.
João Stein, da IFS – International Featured Standards, colocou a responsabilidade pela segurança dos produtos no centro da discussão. “Estamos aqui para discutir um objetivo comum: a gestão da qualidade, a segurança dos alimentos e a conformidade”, afirmou.
João Stein, da IFS – International Featured Standards.
A gestão do risco começa antes de os produtos entrarem nas unidades industriais. A seleção de fornecedores, a avaliação das matérias-primas e a prevenção da fraude alimentar são etapas determinantes para evitar problemas que podem comprometer a segurança dos alimentos.
Gabriela Pinheiro, da APCER, chamou a atenção para a necessidade de as empresas conhecerem os seus riscos e atuarem sobre as respetivas causas. “Uma empresa realmente preparada é a que reconhece que de facto tem riscos, atua sobre as causas e melhora de forma consistente”, afirmou.
Da esquerda para a direita: Gabriela Pinheiro, da APCER; João Stein, da IFS – International Featured Standards e Xavier Nascimento, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).
A eficácia dos sistemas de Análise de Perigos e Controlo de Pontos Críticos (HACCP) foi igualmente abordada. A existência de procedimentos é necessária, mas não garante, por si só, que os perigos estejam controlados. É fundamental verificar se as medidas definidas são adequadas, se são cumpridas pelas equipas e se produzem os resultados esperados.
A rotulagem e a gestão de alergénios exigem cuidados específicos. Uma falha na informação disponibilizada ao consumidor ou um episódio de contaminação cruzada pode ter consequências para a saúde, tornando indispensável o controlo das diferentes etapas de produção e acondicionamento.
Também a gestão de pragas exige acompanhamento contínuo. Joana Mateus, da Anticimex Portugal, destacou a importância de relacionar as evidências recolhidas com os desvios identificados, as ações executadas e a verificação da sua eficácia. A identificação de uma não conformidade não encerra o processo: é necessário perceber a sua origem, corrigir o problema e confirmar se a solução adotada resultou.
A prevenção deve começar ainda na conceção das instalações. Pedro Guerra, da Alicontrol, defendeu uma maior articulação entre as áreas de engenharia e segurança alimentar desde a fase de projeto. “A Engenharia Civil e a Segurança Alimentar têm de se sentar à mesma mesa de projeto para que o resultado seja satisfatório”, afirmou.
A responsabilidade dos operadores e o papel das autoridades competentes estiveram em análise na intervenção de Xavier Nascimento, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV).
Cabe aos operadores do setor alimentar assegurar que os produtos sob a sua responsabilidade cumprem os requisitos de segurança aplicáveis. Às autoridades compete verificar o cumprimento das obrigações legais através dos controlos oficiais e determinar as medidas necessárias perante situações de incumprimento.
Na sua intervenção, Xavier Nascimento abordou também a distinção entre alimentos prejudiciais para a saúde e alimentos impróprios para consumo. Quando é identificado um alimento não seguro que já se encontra no mercado, a resposta pode implicar a retirada do produto ou a sua recolha junto dos consumidores, bem como a comunicação às entidades competentes.
O responsável salientou que a segurança alimentar não depende apenas das regras estabelecidas, mas também da forma como são aplicadas nas empresas.
“A cultura de segurança dos alimentos acaba por ser um resultado de tudo o que acontece no estabelecimento”, afirmou Xavier Nascimento, sublinhando a influência das práticas diárias no funcionamento dos sistemas de controlo.
A formação e o envolvimento dos trabalhadores são, neste contexto, elementos essenciais. Ana Machado, da SGS Portugal, resumiu a importância da competência prática numa frase: “Competência é saber fazer”.
Também Paulo Gaspar, da BRAINR, destacou a necessidade de envolver cada operador na qualidade dos produtos e nos procedimentos de controlo. A segurança alimentar não deve ser vista como uma responsabilidade exclusiva dos departamentos da qualidade, mas como parte das tarefas de quem intervém nos processos.
Susana Castro, da Longa Vida, chamou a atenção para a diferença entre ter um sistema implementado e garantir que este funciona quando é necessário. “Construir um sistema efetivamente é importante, mas saber que ele funciona quando é preciso é o que nos faz a diferença”, afirmou.
O programa incluiu ainda a sustentabilidade, o Regulamento relativo às Embalagens e aos Resíduos de Embalagens (PPWR), a digitalização e a inteligência artificial. Estes temas colocam novas exigências às empresas, que têm de acompanhar a evolução regulamentar e avaliar de que forma as alterações afetam os seus processos.
Ana Brandão, da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), destacou a importância da preparação antecipada para responder às obrigações ambientais. “A ideia é preparar agora para cumprir de forma consistente”, afirmou.
A relação entre fornecedores e distribuição também teve lugar na discussão. Sara Bernardes Silva, da Sonae MC, apontou a transparência como um fator importante na construção de relações de confiança entre as empresas.
“O que distingue ao dia de hoje um fornecedor de confiança é de facto a transparência que tem com o retalho”, afirmou, salientando a importância de assegurar que as práticas adotadas correspondem às exigências e aos compromissos assumidos.
Cristina Câmara, da Associação Portuguesa de Empresas de Distribuição (APED), destacou o contributo da partilha de necessidades e experiências para encontrar respostas aos desafios comuns. “Com esta partilha de necessidades e experiências conseguimos ir lá”, afirmou.
As intervenções do Fórum IFS Lisboa 2026 colocaram em evidência a necessidade de reforçar a prevenção, melhorar a gestão do risco e garantir que os sistemas de segurança alimentar respondem às situações reais das empresas.
A certificação e a conformidade continuam a ser instrumentos importantes, mas a sua eficácia depende da forma como os requisitos são incorporados nas operações, acompanhados pelas equipas e revistos sempre que são identificadas falhas.
Para mais informações, visite o website: https://forumifslisboa.com/



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