Talleres Filsa, S.A.U.
Informação profissional para a indústria alimentar portuguesa
Proteínas alternativas

Proteína do futuro? Leveduras e subprodutos vegetais ganham espaço no menu

Liliana Araújo1, Marlene Lopes1,2, Ana Sousa3 e Isabel Belo1,2

1 CEB – Centre of Biological Engineering, University of Minho, Campus de Gualtar, Braga, Portugal;

2 LABBELS – Associate Laboratory, Braga/Guimarães, Portugal;

3 Associação Colab4Food – Laboratório Colaborativo Para a Inovação da Indústria Agroalimentar | 4485-655 Vairão, Vila do Conde, Portugal.

27/10/2026

Investigadores exploram o potencial da levedura Yarrowia lipolytica na valorização de desperdícios hortofrutícolas para a criação de novos ingredientes alimentares sustentáveis, seguros e de elevado valor nutricional.

Valorização biotecnológica de frutas fora de calibre ou rejeitadas e subprodutos do processamento industrial...

Valorização biotecnológica de frutas fora de calibre ou rejeitadas e subprodutos do processamento industrial: da matéria-prima vegetal ao ingrediente alimentar integral obtido por fermentação com Yarrowia lipolytica.

Do desperdício ao ingrediente: O papel da fermentação em estado sólido

Nos últimos anos, os avanços na biotecnologia e nos processos de fermentação transformaram a forma como a indústria alimentar olha para os resíduos e/ou subprodutos. As leveduras, em particular, destacam-se pelo seu rápido crescimento, elevada eficiência metabólica e facilidade de cultivo à escala industrial.

Tradicionalmente, os processos de fermentação focavam-se na produção, recuperação e purificação de metabolitos ou na produção isolada de biomassa (proteína de origem microbiana). Contudo, uma abordagem mais recente e disruptiva aposta na valorização integral de matérias-primas hortofrutícolas de baixo valor económico, como frutas fora do calibre, vegetais deformados ou subprodutos do processamento industrial (cascas e bagaços), através da fermentação em estado sólido. Nesta estratégia, o produto final integra tanto a biomassa microbiana como o substrato hortofrutícola fermentado, resultando num novo ingrediente híbrido, nutricionalmente rico e pronto para ser incorporado em matrizes alimentares, sem a necessidade de etapas dispendiosas de separação.

A aposta na fermentação em estado sólido (FES) para este processo traz vantagens operacionais, económicas e ambientais determinantes quando comparada à fermentação submersa tradicional. Ao ser realizada com baixo teor de água livre, a FES consome volumes significativamente menores de água, gera um efluente líquido praticamente nulo e reduz os custos energéticos de secagem do ingrediente final. Adicionalmente, por simular o habitat natural de leveduras e fungos em matrizes sólidas concentradas, esta tecnologia permite atingir elevadas produtividades de biomassa e metabolitos de interesse em equipamentos mais simples e compactos, consolidando-se como uma solução altamente sustentável, escalável e alinhada com a bioeconomia circular.

Presente e futuro da Yarrowia lipolytica na indústria

Entre as leveduras não convencionais, Yarrowia lipolytica surge como uma das plataformas biotecnológicas mais promissoras para o desenvolvimento de novos ingredientes alimentares obtidos com culturas microbianas. Trata-se de uma espécie versátil, capaz de metabolizar eficientemente diferentes substratos – açúcares, ácidos orgânicos, gorduras, etc. Esta flexibilidade metabólica permite-lhe sintetizar uma vasta gama de compostos de alto valor acrescentado para a indústria alimentar. Destaca-se pela acumulação de lípidos ricos em ácidos gordos insaturados e pela produção de ácidos orgânicos (como o ácido cítrico e o ácido isocítrico, amplamente utilizados como acidificantes e conservantes), polióis (como o eritritol e o manitol, adoçantes de baixo teor calórico) e aromas (como a gama-decalactona, um composto químico com aroma a pêssego, amplamente utilizado para aprimorar sabores em bebidas, laticínios e pastelaria). Adicionalmente, sob condições otimizadas de cultivo, Y. lipolytica acumula uma elevada quantidade de proteína intracelular (35 % - 50 %), afirmando-se como uma fábrica celular multifuncional capaz de converter subprodutos agroindustriais em ingredientes de alto valor.

Nutricionalmente, a biomassa de Y. lipolytica apresenta um perfil excecional. É uma fonte de proteína de qualidade, rica em aminoácidos essenciais, destacando-se pelos seus elevados teores de lisina e treonina, dois aminoácidos frequentemente limitantes em proteínas de cereais e leguminosas. Além disso, a sua composição inclui diversos compostos bioativos, tais como β-glucanos, vitaminas do complexo B, minerais e lípidos funcionais, que favorecem a saúde intestinal e o equilíbrio da microbiota. Do ponto de vista da sustentabilidade, a produção desta biomassa requer uma fração substancialmente menor de água e de área agrícola quando comparada com as fontes proteicas vegetais ou animais tradicionais.

Segurança e Enquadramento Regulamentar na União Europeia

A segurança regulamentar representa o fator crítico de decisão para a indústria alimentar, e a levedura Y. lipolytica apresenta um enquadramento particularmente sólido e maduro. Na União Europeia, a sua biomassa desidratada e inativada por tratamento térmico foi autorizada como Novo Alimento (Novel Food) pelo Regulamento 2019/760. Esta inativação térmica assegura que o ingrediente final não contém células viáveis, garantindo a estabilidade da formulação e prevenindo fermentações secundárias indesejadas no produto final.

Além disso, Y. lipolytica detém o estatuto QPS (Qualified Presumption of Safety) atribuído pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) e é reconhecida como GRAS (Generally Recognized as Safe) pela Food and Drug Administration (FDA) nos Estados Unidos. A avaliação rigorosa de segurança pela EFSA atesta a ausência de patogenicidade e de produção de micotoxinas ou compostos tóxicos. Quando produzida a partir de subprodutos e matrizes hortofrutícolas (matérias-primas de grau alimentar), a conformidade do ingrediente é adicionalmente assegurada pelo Controlo de Qualidade e pela monitorização de contaminantes (como pesticidas, micotoxinas e metais pesados). Este enquadramento internacional reduz significativamente as barreiras regulamentares, facilitando a introdução do ingrediente no mercado e conferindo total segurança técnica e jurídica às empresas do setor alimentar.

Visualização por microscopia de fluorescência de células de Yarrowia lipolytica coradas com Nile Red...
Visualização por microscopia de fluorescência de células de Yarrowia lipolytica coradas com Nile Red, permitindo a visualização dos lípidos intracelulares.

Oportunidades de mercado e aplicações industriais

Apesar do seu enorme potencial biotecnológico, a comercialização de Y. lipolytica permanece, atualmente, excessivamente conservadora e maioritariamente confinada ao nicho dos suplementos alimentares em formato de cápsulas e comprimidos, como evidenciado pelos dados de lançamentos da plataforma Innova Market Insights. Esta concentração num formato tradicional reflete um subaproveitamento do ingrediente por parte da indústria, uma vez que o seu verdadeiro valor e escala comercial residem na sua incorporação direta em matrizes alimentares processadas e funcionais. Uma das oportunidades mais promissoras situa-se no setor dos análogos de carne e produtos plant-based, onde Y. lipolytica pode atuar como um agente multifuncional. Para além de enriquecer a matriz com proteína de elevada qualidade, as suas propriedades físico-químicas contribuem para resolver dois dos maiores desafios deste segmento: a retenção de água e a melhoria da textura e suculência do produto final. Paralelamente, no setor da panificação e dos cereais, a adição desta biomassa permite colmatar uma falha nutricional histórica dos produtos à base de trigo, a escassez de lisina, elevando substancialmente o valor proteico global sem comprometer a estrutura da massa. No entanto, a abordagem mais disruptiva passa pela formulação de snacks funcionais e bebidas através da incorporação do ingrediente integral obtido pela fermentação em estado sólido de subprodutos hortofrutícolas e levedura. Este ingrediente não só fornece fibra, proteína e compostos bioativos, como também confere notas sensoriais características (como perfis umami ou ligeiramente frutados/fermentados), reduzindo a necessidade de aditivos de aroma sintéticos. Por fim, no mercado da nutrição animal e aquacultura premium, a biomassa surge como um ingrediente estratégico não apenas pelo aporte nutricional, mas pelo seu papel como promotor natural da imunidade e da saúde intestinal dos animais. Para que esta transição do nicho dos suplementos para o mercado alimentar de grande consumo ocorra com sucesso, a indústria terá de superar desafios críticos. É indispensável otimizar os custos de processamento (nomeadamente as etapas energicamente intensivas de secagem da biomassa) e realizar estudos aprofundados de aceitação pelo consumidor. A neofobia alimentar associada a ingredientes de origem microbiana e a gestão do perfil organolético nas matrizes mais sensíveis (como bebidas e panificação) representam os verdadeiros desafios que ditarão a velocidade de adoção de ingredientes derivados de Y. lipolytica pelas grandes marcas agroalimentares.

A nossa abordagem: Ingredientes integrais resultantes de fermentação em estado sólido

A estratégia desenvolvida pela nossa equipa no Centro de Engenharia Biológica (CEB) da Universidade do Minho foca-se na valorização direta e integral de desperdícios e subprodutos hortofrutícolas através de fermentação em estado sólido com a levedura Y. lipolytica, convertendo-os num ingrediente plant-based de elevada qualidade nutricional.

A prova de conceito desta tecnologia teve início no âmbito do projeto Micro4Food (Upgrading fruit wastes for microbial protein production, 2022.01705.PTDC). Neste trabalho, a atenção focou-se na fermentação de cascas de banana e de laranja com Y. lipolytica, demonstrando ser possível enriquecer a matriz vegetal em proteína microbiana e reduzir o teor de açúcares livres, mantendo o teor de fibra. A aplicabilidade direta deste ingrediente (cascas + levedura) foi demonstrada com sucesso através da formulação de snacks alimentares à base de cascas de fruta fermentadas, com significativa aceitação pelo consumidor.

A investigação avança agora para uma abordagem mais abrangente, alargando o espectro de matérias-primas utilizadas com o objetivo de reduzir perdas e aumentar a eficiência da cadeia alimentar. No âmbito do projeto FruTotal (Alcobaça Apple IGP and Rocha Pear DOP preparations enriched with protein and fiber obtained from the biomass of rejected fruit, COMPETE2030 - FEDER - 01464400), pretende-se desenvolver preparados de fruta enriquecidos com proteína (obtida através da fermentação de maçã e pera rejeitadas com Y. lipolytica). O projeto GreenProFood (Biotechnological approach for the valorization of fruit and vegetable surpluses into new protein and functional foods, COMPETE2030-FEDER-00715500) visa utilizar a fermentação com Y. lipolytica como uma estratégia biotecnológica para reduzir o teor de açúcares e fortificar os produtos com compostos bioativos e proteína microbiana, aumentando o valor nutricional dos produtos vegetais, contribuindo assim para o aumento da sua comercialização.

A transição do laboratório para o mercado exige superar desafios industriais decisivos para viabilizar este ingrediente do futuro. O principal obstáculo reside no aumento de escala e no processamento a jusante (secagem e moagem), onde a eficiência energética é crítica para garantir custos competitivos. Paralelamente, é necessário otimizar o perfil organolético e a funcionalidade técnica (solubilidade e emulsão) em matrizes alimentares reais. Por fim, o sucesso comercial dependerá de uma forte sinergia entre academia e indústria para assegurar uma cadeia de abastecimento contínua.

Agradecimentos: À Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), pelo financiamento da bolsa de doutoramento atribuída a Liliana Araújo (ref. 2024.01597.BDANA).

 

Referências:

Araújo, L. P., Fernandes, A., Belo, I., & Lopes, M. (2026). Valorization of orange and banana peels through Yarrowia lipolytica solid-state and semi-solid fermentation. Biocatalysis and Agricultural Biotechnology, 104158. https://doi.org/10.1016/j.bcab.2026.104158.

Costa, A. R., Salgado, J. M., & Belo, I. (2023). Olive and sunflower cakes as suitable substrates for lipase production by Yarrowia spp.: From flasks to bioreactor. Biocatalysis and Agricultural Biotechnology, 51, 102783. https://doi.org/10.1016/J.BCAB.2023.102783.

Drzymala, K., Mironczuk, A. M., Pietrzak, W., & Dobrowolski, A. (2020). Rye and Oat Agricultural Wastes as Substrate Candidates for Biomass Production of the Non-Conventional Yeast Yarrowia lipolytica. Sustainability 2020, 12, 7704, 12(18), 7704. https://doi.org/10.3390/SU12187704.

Lopes, M., Miranda, S. M., Costa, A. R., Pereira, A. S., & Belo, I. (2021). Yarrowia lipolytica as a biorefinery platform for effluents and solid wastes valorization – challenges and opportunities. Https://Doi.Org/10.1080/07388551.2021.1931016, 42(2), 163–183. https://doi.org/10.1080/07388551.2021.1931016.

Michalik, B., Jacyno, E., Lubowicki, R., & Biel, W. (2013). Biological evaluation of the protein nutritional value in the diets of rats based on cereals and the yeast Yarrowia lipolytica growing on industrial glycerol. Acta Agriculturae Scandinavica, Section A - Animal Science, 63(3), 163–168. https://doi.org/10.1080/09064702.2013.829864.

Singh, A., Vidakovic, A., Singh, A., Dicksved, J., Schnürer, A., & Lundh, T. (2024). Yarrowia lipolytica yeast as a dietary supplement for rainbow trout (Oncorhynchus mykiss): Effects on gut microbiota, health and immunity. Aquaculture, 590, 741065. https://doi.org/10.1016/J.AQUACULTURE.2024.741065.

“Entre as leveduras não convencionais, Yarrowia lipolytica surge como uma das plataformas biotecnológicas mais promissoras para o desenvolvimento de novos ingredientes alimentares obtidos com culturas microbianas. Trata-se de uma espécie versátil, capaz de metabolizar eficientemente diferentes substratos – açúcares, ácidos orgânicos, gorduras, etc. Esta flexibilidade metabólica permite-lhe sintetizar uma vasta gama de compostos de alto valor acrescentado para a indústria alimentar.”

REVISTAS

ExposalãoANTRAMInduglobal, Unipessoal Lda - iAlimentarSew Eurodrive Portugal

NEWSLETTERS

  • Newsletter iAlimentar

    26/10/2026

  • Newsletter iAlimentar

    19/10/2026

Subscrever gratuitamente a Newsletter - Ver exemplo

Password

Marcar todos

Autorizo o envio de newsletters e informações de interempresas.net

Autorizo o envio de comunicações de terceiros via interempresas.net

Li e aceito as condições do Aviso legal e da Política de Proteção de Dados

Responsable: Interempresas Media, S.L.U. Finalidades: Assinatura da(s) nossa(s) newsletter(s). Gerenciamento de contas de usuários. Envio de e-mails relacionados a ele ou relacionados a interesses semelhantes ou associados.Conservação: durante o relacionamento com você, ou enquanto for necessário para realizar os propósitos especificados. Atribuição: Os dados podem ser transferidos para outras empresas do grupo por motivos de gestão interna. Derechos: Acceso, rectificación, oposición, supresión, portabilidad, limitación del tratatamiento y decisiones automatizadas: entre em contato com nosso DPO. Si considera que el tratamiento no se ajusta a la normativa vigente, puede presentar reclamación ante la AEPD. Mais informação: Política de Proteção de Dados

ialimentar.pt

iAlimentar - Informação profissional para a indústria alimentar portuguesa

Estatuto Editorial