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Informação profissional para a indústria alimentar portuguesa

Entrevista | Segurança Alimentar

“A próxima vantagem competitiva da indústria alimentar será a sua capacidade de antecipar riscos”

19/10/2026
“A segurança alimentar do futuro basear-se-á cada vez mais na combinação de conhecimento especializado, dados e colaboração entre todos os intervenientes da cadeia de valor.”

Alejo Migones, VP Food Safety & Quality da bioMérieux, partilha a sua visão sobre a forma como a segurança alimentar está a evoluir de uma função de controlo para um motor de competitividade, eficiência e criação de valor para as empresas do setor.

Alejo Migones, VP Food Safety & Quality da bioMérieux
Alejo Migones, VP Food Safety & Quality da bioMérieux.

Durante anos, a segurança alimentar foi considerada uma obrigação regulamentar. Esta visão está a mudar?

Sem dúvida. A segurança alimentar deixou de ser apenas uma questão de conformidade regulamentar para se tornar um elemento estratégico para as empresas. Hoje, num contexto marcado pela pressão sobre os custos, pela volatilidade das cadeias de abastecimento, pela escassez de recursos e por exigências crescentes por parte dos consumidores e dos reguladores, a gestão do risco tem um impacto direto na competitividade, na rentabilidade e na sustentabilidade das organizações.

A questão que os líderes da indústria devem colocar já não é se os seus programas de qualidade cumprem os requisitos estabelecidos, mas sim se esses programas estão efetivamente a ajudar a melhorar o desempenho do negócio.

Quais são atualmente os principais desafios para os responsáveis das indústrias alimentares?

Existe uma necessidade comum em praticamente toda a indústria alimentar: produzir mais, melhor e com recursos limitados.

No entanto, muitas empresas continuam a suportar custos ocultos associados à falta de qualidade: recolhas de produto, desperdício alimentar, reprocessamentos, tempos de paragem, limpezas extraordinárias, reclamações de clientes ou perda de prazo de validade. Embora nem sempre sejam visíveis, estes fatores têm um impacto nos resultados financeiros que, consoante os casos, pode variar entre 100 mil e 1 milhão de euros.

Por isso, acreditamos que a segurança alimentar deve ser medida não apenas pelo número de análises realizadas ou pelo cumprimento das auditorias, mas também pela sua capacidade de proteger a rentabilidade do negócio, otimizar recursos e melhorar a eficiência operacional.

Porque considera que o modelo tradicional de gestão do risco já não é suficiente?

Porque durante décadas trabalhámos com abordagens concebidas para detetar e corrigir desvios depois de estes já terem ocorrido. Esse modelo foi eficaz no passado, mas a indústria atual é muito mais complexa.

Hoje, as empresas operam em cadeias de abastecimento globais, gerem múltiplos fornecedores, incorporam novas matérias-primas e desenvolvem produtos alinhados com tendências como os rótulos limpos, a redução de aditivos ou uma maior transparência para com o consumidor.

Neste contexto, reagir já não é suficiente. As organizações líderes estão a evoluir para modelos que permitam antecipar riscos antes de estes terem impacto na produção ou no mercado. Compreender porque surge um problema, onde tem origem e como evitar que volte a acontecer será uma das grandes vantagens competitivas da próxima década.

Existe uma pressão crescente para melhorar a sustentabilidade. Que papel desempenha a qualidade neste domínio?

Um papel fundamental. Todos os anos, uma parte significativa dos alimentos produzidos perde-se em consequência da deterioração microbiológica e de problemas relacionados com a qualidade. Estas perdas geram um impacto económico importante, mas também uma pegada ambiental considerável.

Quando uma empresa consegue reduzir quebras, prolongar o prazo de validade dos seus produtos ou evitar retiradas do mercado, está simultaneamente a atingir três objetivos: melhorar a sua rentabilidade, reduzir o seu impacto ambiental e reforçar a confiança dos clientes e consumidores.

Por isso, sustentabilidade e eficiência operacional já não são conceitos independentes. São duas faces da mesma moeda.

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A bioMérieux fala em “Augmented Diagnostics”. O que significa exatamente?

Significa disponibilizar à indústria soluções que lhe permitam obter rapidamente informação de valor e transformar essa informação em decisões.

As empresas alimentares geram enormes quantidades de dados através dos seus programas de controlo ambiental, análises de produto, entre outros. Contudo, com frequência, esses dados permanecem isolados e não são plenamente aproveitados.

A nossa visão consiste em ajudar as organizações a transformar essa informação em conhecimento acionável que permita tomar decisões mais rápidas, mais precisas e com maior impacto no negócio.

No final, o verdadeiro valor não está em gerar mais dados, mas em utilizá-los para melhorar processos, reduzir riscos e otimizar recursos.

Poderia partilhar algum exemplo concreto?

Claro. Soluções como o GENE-UP® TYPER ajudam a acelerar a compreensão da origem de determinados eventos microbiológicos envolvendo agentes patogénicos muito relevantes, como a Salmonella ou a Listeria monocytogenes, facilitando investigações mais rápidas e uma capacidade de resposta muito mais eficaz perante incidentes que poderiam traduzir-se em perdas económicas ou interrupções produtivas.

Por outro lado, o SMARTBIOME™ permite abordar um dos grandes desafios da indústria: compreender melhor a deterioração microbiológica e o seu impacto no prazo de validade dos produtos. Graças a uma melhor compreensão das causas da deterioração, as empresas podem atuar na raiz do problema, reduzindo desperdícios e melhorando a eficiência das suas operações.

A verdadeira oportunidade reside em ir além da deteção e compreender porque surgem determinados microrganismos, como evoluem e quais são as consequências para a rentabilidade do negócio. Esse conhecimento permite avançar para operações mais eficientes, sustentáveis e orientadas para a prevenção.

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Fala também da colaboração como uma tendência-chave. Porquê?

Porque os desafios atuais são demasiado complexos para serem geridos de forma isolada.

A segurança alimentar do futuro basear-se-á cada vez mais na combinação de conhecimento especializado, dados e colaboração entre todos os intervenientes da cadeia de valor.

Por isso, promovemos iniciativas como a Trusted Third Party (TTP) em conjunto com a Mérieux NutriSciences. O seu objetivo é gerar inteligência coletiva a partir de dados agregados e anonimizados para ajudar a indústria a identificar padrões de risco, reforçar a gestão de fornecedores e tomar decisões mais informadas.

Para além da tecnologia, representa uma nova forma de colaboração baseada na confiança e na criação de valor partilhado.

Como imagina a gestão do risco alimentar daqui a cinco anos?

Vai ser muito diferente.

Os líderes já não quererão saber apenas se existe um problema. Quererão compreender qual a probabilidade de esse problema ocorrer, qual poderá ser o seu impacto económico e que ações preventivas oferecem o maior retorno sobre o investimento.

Veremos uma integração muito mais estreita entre qualidade, operações, compras e cadeia de abastecimento. O risco deixará de ser gerido de forma isolada para se tornar um indicador estratégico partilhado por toda a organização.

Além disso, as empresas mais avançadas utilizarão dados provenientes de múltiplas fontes para identificar tendências, detetar sinais precoces e reforçar a gestão de fornecedores e de riscos emergentes.

Na minha opinião, as organizações líderes não serão aquelas que reagirem mais rapidamente a uma crise, mas sim aquelas capazes de evitar que essa crise venha sequer a acontecer.

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Para concluir, que papel pretende a bioMérieux desempenhar nesta transformação?

Queremos ser um parceiro estratégico de longo prazo para os nossos clientes.

Com mais de três décadas de experiência em Aplicações Industriais, continuamos a investir em ciência, inovação e tecnologias disruptivas para ajudar a indústria alimentar a adaptar-se a um ambiente em constante transformação.

O nosso objetivo é ir além dos resultados analíticos isolados. Graças ao desenvolvimento de soluções baseadas em microbiologia avançada, sequenciação e análise inteligente de dados, estamos a ajudar os fabricantes a otimizar processos, reforçar os seus programas de gestão do risco microbiológico e melhorar continuamente os seus padrões de qualidade.

Em última análise, todas estas inovações perseguem um mesmo objetivo: ajudar a indústria alimentar a produzir alimentos mais seguros, operar de forma mais eficiente e construir organizações mais resilientes. Porque a segurança alimentar já não é apenas uma questão de proteção, mas uma alavanca de competitividade e crescimento sustentável.

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