Há empresas que nascem de um plano de negócios. Outras começam muito antes disso, alimentadas por uma paixão que cresce ao longo dos anos. Foi esse o percurso da Lemos Figueiredo – Adega & Destilaria de Alcobaça, cuja história começou numa garagem, entre pequenos alambiques e experiências de destilação que, inicialmente, eram apenas um hobby.
Mais de uma década depois, esse projeto familiar transformou-se numa destilaria sediada em Alcobaça, dedicada à produção de ginjas, gins, vermouth e bebidas sem álcool. À frente da empresa continuam Salomão Lemos Figueiredo e a filha, Mariana Lemos Figueiredo, que conciliam a experiência ligada ao setor agroindustrial com uma aposta contínua na inovação, sustentabilidade e valorização do território.
“Tudo começou na garagem. Sempre gostei de destilar e fazia-o como hobby. Em 2013 decidimos transformar essa paixão num projeto familiar”, recorda Salomão Lemos Figueiredo, managing director.
O crescimento foi sempre gradual. A empresa investiu em novos equipamentos à medida das necessidades da produção, recusando uma expansão acelerada e privilegiando pequenos lotes que permitem preservar a qualidade e o carácter artesanal.
À medida que o projeto evoluiu, a família assumiu um papel cada vez mais ativo nas diferentes etapas da atividade, das colheitas ao engarrafamento. Essa dimensão familiar continua a marcar a identidade da empresa. “Nunca quisemos massificar a produção. Preferimos crescer devagar, mantendo a qualidade e o carácter artesanal dos nossos produtos”.
Quando a pandemia de COVID-19 interrompeu os planos da empresa, a Lemos Figueiredo encontrava-se a preparar mais uma campanha de produção de ginja. O álcool adquirido para a destilação acabou por ser utilizado na produção de álcool-gel, depois de obtidas as autorizações necessárias. “Foi uma coincidência feliz. Tínhamos álcool destinado à campanha da ginja e, quando surgiu a pandemia, percebemos que podíamos ajudar. O nosso confinamento foi passado a engarrafar álcool-gel”, recorda.
Sem equipamentos preparados para embalagens de pequena dimensão, a produção iniciou-se de forma praticamente manual. Ao longo dos primeiros meses da pandemia, a empresa produziu cerca de 35 mil litros de álcool-gel, distribuídos por hospitais, farmácias, bombeiros, proteção civil, câmaras municipais e outras entidades. Segundo Mariana Lemos Figueiredo, marketing diretor, este período contribuiu para aumentar a notoriedade da marca, mas confirmou sobretudo a capacidade de adaptação da empresa perante uma situação excecional.
Muito antes de a sustentabilidade ganhar protagonismo nas estratégias empresariais, a Lemos Figueiredo já procurava reduzir desperdícios e valorizar integralmente as matérias-primas. Essa abordagem tornou-se particularmente visível com o desenvolvimento do Casanova Dry Gin, produzido com maçãs de Alcobaça excluídas dos circuitos comerciais apenas por não cumprirem critérios estéticos.
“Queríamos lançar uma marca com propósito. Quando percebemos a dimensão do desperdício alimentar, decidimos utilizar maçãs de Alcobaça que não eram aproveitadas pelo mercado por questões estéticas”, explica Mariana Figueiredo.
A preocupação ambiental estende-se igualmente às embalagens. A empresa utiliza garrafas produzidas com vidro reciclado, rótulos biodegradáveis e eliminou os componentes plásticos dos sistemas de selagem, procurando reduzir o impacto ambiental em todas as fases do produto.
A valorização dos recursos acompanha todo o processo produtivo. Na produção da ginja, os caroços são transformados em bolsas térmicas reutilizáveis para aplicações de termoterapia e crioterapia, enquanto os resíduos da prensagem seguem para alimentação animal. “Na ginja há um aproveitamento praticamente total. Os caroços transformam-se em bolsas térmicas e as massas da prensagem seguem para alimentação animal. Procuramos que nada se desperdice”, afirma Salomão Lemos Figueiredo.
A empresa estuda igualmente novas aplicações para os pedúnculos da cereja, nomeadamente na produção de infusões, reforçando o objetivo de aumentar o aproveitamento integral da fruta.
Também as frações alcoólicas que não reúnem características para integrar as bebidas são encaminhadas para outras utilizações industriais, como detergentes e soluções desinfetantes.
Após a destilação, as bebidas permanecem várias semanas em repouso para estabilização dos aromas. A mesma lógica aplica-se às ginjas de reserva, envelhecidas em barricas de carvalho francês através de um sistema inspirado na soleira utilizada nos vinhos generosos.
Sempre que possível, a empresa privilegia fornecedores nacionais e produtores da região de Alcobaça. No caso das garrafas em vidro reciclado, recorre a produção italiana por ainda não existir uma solução equivalente em Portugal, mantendo, contudo, a distribuição através de um operador nacional.
Formada em Marketing e com especialização em marketing digital e destilação, Mariana Figueiredo assumiu um papel determinante na construção da identidade da marca e no desenvolvimento de novos produtos.
Entre eles destaca-se o Casanova Dry Gin, cuja receita valoriza a maçã de Alcobaça como ingrediente diferenciador. Posteriormente, a empresa lançou o Casanova Citrus Dry Gin, desenvolvido em parceria com a Too Good To Go, utilizando limas provenientes de excedentes de produção, bem como o Limão de Mafra, não comercializável, reforçando a aposta na valorização de matérias-primas que dificilmente encontrariam outro destino comercial.
O desafio passou por preservar o perfil aromático do produto original, reformulando o processo de destilação e ajustando a utilização dos botânicos para compensar a ausência de álcool.
“Queríamos que o consumidor tivesse praticamente a mesma experiência do nosso gin, mas sem álcool. Foi um desenvolvimento exigente, porque o objetivo era preservar o perfil aromático do produto”, explica Mariana Figueiredo.
Segundo a responsável, este segmento responde hoje a diferentes perfis de consumidores, desde quem não pode consumir álcool até quem procura alternativas para momentos de convívio sem abdicar da experiência.
A estratégia de inovação prossegue com o lançamento da Casanova Vodka, que marca a entrada da empresa numa nova categoria de bebidas espirituosas. A apresentação oficial está prevista para o Casanova Fest, a realizar a 7 de agosto, em Alcobaça. “Todos os verões fazemos um lançamento. Este ano quisemos sair da nossa zona de conforto e responder ao que sentimos no mercado. A vodka será um produto diferente, mas alinhado com a identidade da Lemos Figueiredo”, revela Mariana Figueiredo.
Apesar da diversificação do portefólio, a empresa mantém a mesma filosofia de produção artesanal, pequenas séries e desenvolvimento próprio, privilegiando a coerência da marca em detrimento das tendências passageiras.
A ligação ao território estende-se igualmente ao enoturismo. Ao longo do ano, a destilaria recebe visitantes interessados em conhecer o processo de produção, contactar com os alambiques e barricas de envelhecimento e compreender as diferentes etapas da destilação.
A sustentabilidade faz parte dessa estratégia desde a origem do projeto e manifesta-se na valorização das matérias-primas, no aproveitamento dos subprodutos, na escolha das embalagens, na economia circular e no desenvolvimento de novas referências.
Num contexto em que a sustentabilidade se tornou um fator diferenciador para muitas empresas, a Lemos Figueiredo apresenta-a como um princípio de gestão consolidado, integrado na forma como produz, inova e valoriza os recursos do território.
Mais informações em https://www.lemosfigueiredo.pt/

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