A redução do desperdício alimentar exige uma resposta coordenada entre produtores, indústria, distribuição, consumidores e decisores políticos. Na 2.ª Conferência Internacional de Sustentabilidade da GS1 Portugal, especialistas nacionais e internacionais defenderam mais monitorização, literacia alimentar, inovação tecnológica e incentivos às doações para acelerar a transição para um sistema alimentar mais eficiente e circular.
Portugal continua a registar níveis de desperdício alimentar superiores à média da União Europeia e não apresenta sinais de redução desde 2022. O alerta foi deixado durante a 2.ª Conferência Internacional de Sustentabilidade da GS1 Portugal, realizada no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, a 27 de maio, onde especialistas nacionais e internacionais, representantes institucionais e empresas debateram soluções para reduzir perdas alimentares e promover um sistema mais sustentável e circular.
Na abertura do encontro, o diretor-geral da GS1 Portugal, Paulo Gomes, defendeu que o combate ao desperdício alimentar exige uma mudança de paradigma, considerando que os excedentes devem ser encarados como oportunidades e a colaboração entre os diferentes intervenientes da cadeia alimentar como uma condição indispensável para alcançar resultados concretos. O responsável sublinhou ainda que esta é uma questão de responsabilidade perante as gerações futuras.
Numa mensagem em vídeo, o ministro da Agricultura e Mar, José Manuel Fernandes, afirmou que o desperdício alimentar representa não apenas um desafio ético e ambiental, mas também uma oportunidade económica, social e de investigação. Segundo o governante, a transformação de desperdícios em recursos pode contribuir para a criação de novos modelos de negócio e para a redução da dependência europeia de matérias-primas, como os fertilizantes.
O ministro destacou ainda a nova ‘Estratégia Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar’, que pretende reforçar o trabalho já desenvolvido, apostando na sensibilização dos consumidores e na educação das gerações mais jovens, particularmente em contexto escolar.
A dimensão do problema na Europa foi apresentada por Klaus Berend, diretor de Segurança Alimentar, Sustentabilidade e Inovação da Direção-Geral da Saúde e Segurança Alimentar da Comissão Europeia. Segundo o responsável, são desperdiçadas anualmente na União Europeia cerca de 58 milhões de toneladas de alimentos, o equivalente a 129 quilos por cidadão, com um custo estimado de 132 mil milhões de euros.
Berend recordou que as metas europeias para 2030 apontam para uma redução de 10% do desperdício na indústria e de 30% per capita no retalho, restauração e consumo doméstico. Referindo-se ao caso português, salientou que os indicadores permanecem acima da média europeia e que não existem evidências de redução desde 2022.
No plano nacional, Susana Gaspar, chefe de Divisão de Organização e Produção Agroalimentar do Gabinete de Planeamento, Políticas e Administração Geral (GPP), apresentou a proposta da Estratégia Nacional de Combate ao Desperdício Alimentar (ENCDA 2025+), assente nos pilares da prevenção, redução e monitorização.
A responsável destacou a necessidade de investir na sensibilização dos consumidores, na educação em meio escolar, na articulação entre os diferentes agentes da cadeia de valor e no reforço das doações alimentares, considerando os consumidores mais jovens uma peça fundamental para alcançar resultados duradouros.
Segundo os dados apresentados, 67% do desperdício alimentar em Portugal ocorre nas famílias. Para o responsável, sem medição rigorosa as metas correm o risco de permanecer apenas no plano das intenções.
Também Cristiana da Silva Gomes, chefe de Divisão de Resíduos Setoriais da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), defendeu a prevenção como prioridade, recordando que as famílias e o canal horeca – restauração e alojamento – representam, em conjunto, quase 80% do desperdício alimentar no país.
Sara Martins, investigadora do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) e representante do ECR Retail Loss, analisou as políticas de descontos aplicadas a produtos próximos do fim da validade e alertou para o risco de o desperdício ser simplesmente transferido das lojas para as casas dos consumidores.
A especialista defendeu uma utilização mais intensiva de dados para otimizar estas estratégias e destacou o potencial dos códigos bidimensionais (QR Codes powered by GS1), capazes de fornecer informação detalhada sobre o estado e a durabilidade dos produtos.
O potencial desta tecnologia foi ilustrado por Anna Godfrey, diretora-executiva da GS1 UK, através do caso da cadeia britânica Tesco. Depois de projetos-piloto em 99 lojas e de uma expansão para 170 estabelecimentos, a empresa já utiliza QR codes em 34 produtos a nível nacional, com o objetivo de reduzir desperdícios, simplificar operações e reforçar a transparência junto dos consumidores.
Carlos Vicente, CEO da Vitacress, defendeu uma maior integração entre produtores e retalhistas, sublinhando a imprevisibilidade da produção agrícola e a exigência crescente por produtos visualmente perfeitos.
Fernando Santos Ventura, diretor global de Ambiente da Jerónimo Martins, destacou a dificuldade em ajustar a oferta à procura diária dos consumidores, enquanto Mariana Pereira da Silva, responsável de Sustentabilidade da MC Sonae, apelou à simplificação dos processos de doação e ao reforço dos incentivos fiscais.
Alexandra Madeira, responsável de Ambiente da Auchan Retail Portugal, defendeu maior flexibilidade por parte das autoridades na gestão dos excedentes alimentares. Já Patrícia Jesus, responsável de Comunicação e Sustentabilidade da Unilever FIMA & Gallo Worldwide, apontou a digitalização e a colaboração com o retalho como instrumentos fundamentais para reduzir perdas.
Helena Sousa, da Divisão de Riscos Alimentares da Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), referiu que cerca de 10% dos 88 milhões de toneladas de desperdício alimentar registados estão associados à interpretação incorreta das datas de validade.
A responsável defendeu uma melhor compreensão das diferenças entre as expressões ‘consumir até’ e ‘consumir de preferência antes de’, recordando que a estratégia europeia ‘Do Prado ao Prato’ prevê a introdução da menção ‘frequentemente bom após’, para reduzir a confusão dos consumidores.
Na mesa-redonda dedicada à segurança alimentar e gestão da durabilidade dos produtos, Francisco Duarte Ferreira, responsável da cadeia de abastecimento da Danone Portugal, apelou aos consumidores para que utilizem os sentidos na avaliação dos alimentos, enquanto Paula Bico, da Direção-Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV), insistiu na necessidade de reforçar a educação alimentar junto dos mais jovens.
Entre os principais desafios apontou o comportamento dos consumidores, a necessidade de melhores métricas e algumas limitações fiscais.
Em resposta a estas preocupações, Helena Pegado Martins, subdiretora-geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, recordou os benefícios atualmente existentes para as doações, incluindo a isenção de IVA e o enquadramento no mecenato social. Anunciou ainda que está prevista uma revisão legislativa que aumentará o limite máximo dos benefícios fiscais aplicáveis a este tipo de donativos.
A experiência espanhola foi também apresentada como exemplo de boas práticas. A associação empresarial Associação Espanhola de Codificação Comercial (AECOC - Asociación Española de Codificación Comercial) desenvolveu uma plataforma digital que permite às empresas medir o impacto real das suas ações de combate ao desperdício, recorrendo a indicadores como o número de refeições poupadas e a redução da pegada carbónica.
Francisco Caldeira, diretor de Serviços de Competitividade do GPP, defendeu uma articulação voluntária entre todos os elos da cadeia alimentar, enquanto Paula Mota Rodrigues, da Câmara Municipal de Torres Vedras, apresentou projetos educativos dirigidos às crianças para promover uma relação mais consciente com os alimentos.
Já Susana Fonseca, vice-presidente da Zero – Associação Sistema Terrestre Sustentável, considerou insuficiente a atual abordagem portuguesa ao problema e defendeu políticas públicas mais exigentes, acompanhadas de mecanismos de monitorização e fiscalização que permitam cumprir as metas de redução do desperdício alimentar até 2030.
No encerramento da conferência, a diretora de Sustentabilidade, Comunicação e Marketing da GS1 Portugal, Marta Résio, salientou que o debate está longe de concluído, defendendo a continuidade do trabalho conjunto entre entidades públicas, empresas e sociedade civil para transformar o desperdício alimentar em valor económico, social e ambiental.

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