Informação profissional para a indústria alimentar portuguesa
Material supramolecular de celulose permite degradação rápida em ambiente marinho

Investigadores japoneses criam plástico à base de celulose que desaparece no mar sem deixar rasto

31/03/2026
O desenvolvimento de materiais plásticos sustentáveis tem sido um dos principais desafios da indústria nas últimas décadas, em particular no combate à poluição por microplásticos. Um novo avanço científico poderá representar um ponto de viragem: investigadores do RIKEN Center for Emergent Matter Science (CEMS), no Japão, desenvolveram um material à base de celulose capaz de se degradar rapidamente em água salgada, sem deixar resíduos microplásticos.

Descrito na revista científica Journal of the American Chemical Society, este novo material combina resistência mecânica e flexibilidade com uma capacidade de decomposição controlada em ambiente marinho — uma limitação crítica dos atuais plásticos ditos biodegradáveis.

Imagen

Microplásticos: um problema global

A presença de microplásticos tornou-se um problema ambiental global, com partículas já identificadas em solos, oceanos, organismos vivos e até no corpo humano. Apesar da crescente oferta de plásticos biodegradáveis, muitos destes materiais não se degradam eficazmente em ambiente marinho, ou fazem-no de forma incompleta, originando fragmentos persistentes.

Face a este cenário, a investigação tem procurado soluções que conciliem desempenho técnico com degradação efetiva em condições reais de utilização.

Uma nova abordagem baseada em ligações reversíveis

A equipa liderada por Takuzo Aida partiu de um conceito já explorado anteriormente: plásticos supramoleculares formados por polímeros ligados através de ‘pontes salinas’, ou seja, interações reversíveis entre cargas opostas. Em contacto com água salgada, estas ligações são quebradas, levando à desintegração do material.

No entanto, as primeiras versões apresentavam limitações em termos de aplicabilidade industrial. O novo desenvolvimento introduz uma melhoria decisiva ao incorporar carboximetilcelulose — um derivado da polpa de madeira, biodegradável e aprovado para uso alimentar.

Este componente é combinado com um agente de reticulação baseado em iões guanidínio, derivados de polietilenimina, criando uma rede tridimensional estável quando misturados em água à temperatura ambiente. O resultado é um material resistente, cuja estrutura se mantém em condições normais, mas que se desagrega rapidamente em ambiente salino.

Esquema do processo através do qual a celulose e os iões de guanidínio derivados da polietilenimina se combinam em água para formar, inicialmente...
Esquema do processo através do qual a celulose e os iões de guanidínio derivados da polietilenimina se combinam em água para formar, inicialmente, uma película plástica transparente e rígida à base de celulose. Posteriormente, as suas propriedades mecânicas são ajustadas através da adição de cloreto de colina.

Ajuste de propriedades e processabilidade

Um dos desafios iniciais deste material foi a sua rigidez e fragilidade, associadas à estrutura da celulose. Para ultrapassar esta limitação, os investigadores introduziram cloreto de colina — um aditivo alimentar também aprovado — como plastificante.

Através do ajuste da sua proporção, foi possível modular as propriedades mecânicas do material, permitindo transitar de um comportamento rígido, semelhante ao vidro, para um material elástico, capaz de se alongar até 130% do seu comprimento original. O material pode ainda ser transformado em filmes finos, com espessuras na ordem dos 0,07 mm, mantendo resistência e integridade estrutural.

Desempenho comparável e potencial industrial

O novo material, designado CMCSP, apresenta uma resistência comparável à dos plásticos convencionais de origem fóssil, mantendo simultaneamente características como transparência, processabilidade e reciclabilidade em circuito fechado.

Outro fator relevante é a utilização de matérias-primas comuns, de baixo custo e já aprovadas para contacto alimentar, o que poderá facilitar a sua transição para aplicações industriais.

Em testes laboratoriais, produtos fabricados com este material — como embalagens flexíveis — demonstraram capacidade de dissolução completa em água do mar artificial em poucas horas, sem formação de microplásticos.

Saco de plástico biodegradável de origem vegetal utilizado para acondicionar vegetais...

Saco de plástico biodegradável de origem vegetal utilizado para acondicionar vegetais. Os seus componentes são comuns, económicos e aprovados pela FDA, e o material é obtido através da simples mistura desses componentes em água. Pode decompor-se totalmente em água do mar artificial em cerca de duas horas, sem deixar microplásticos.

Implicações para a indústria dos plásticos

Este desenvolvimento surge num momento em que a indústria enfrenta uma crescente pressão regulatória e social para reduzir o impacto ambiental dos plásticos, particularmente em aplicações de uso único.

A possibilidade de desenvolver materiais que se degradam de forma controlada em ambiente marinho, mantendo simultaneamente desempenho técnico, poderá abrir novas oportunidades, sobretudo em setores como embalagens, agricultura ou aplicações marítimas.

Ainda que sejam necessários passos adicionais para validar a escalabilidade e viabilidade económica, este novo material representa um avanço significativo na procura de soluções que conciliem funcionalidade, segurança e sustentabilidade — um dos grandes desafios estruturais da indústria dos plásticos.

REVISTAS

NEWSLETTERS

  • Newsletter iAlimentar

    30/03/2026

  • Newsletter iAlimentar

    23/03/2026

Subscrever gratuitamente a Newsletter - Ver exemplo

Password

Marcar todos

Autorizo o envio de newsletters e informações de interempresas.net

Autorizo o envio de comunicações de terceiros via interempresas.net

Li e aceito as condições do Aviso legal e da Política de Proteção de Dados

Responsable: Interempresas Media, S.L.U. Finalidades: Assinatura da(s) nossa(s) newsletter(s). Gerenciamento de contas de usuários. Envio de e-mails relacionados a ele ou relacionados a interesses semelhantes ou associados.Conservação: durante o relacionamento com você, ou enquanto for necessário para realizar os propósitos especificados. Atribuição: Os dados podem ser transferidos para outras empresas do grupo por motivos de gestão interna. Derechos: Acceso, rectificación, oposición, supresión, portabilidad, limitación del tratatamiento y decisiones automatizadas: entre em contato com nosso DPO. Si considera que el tratamiento no se ajusta a la normativa vigente, puede presentar reclamación ante la AEPD. Mais informação: Política de Proteção de Dados

ialimentar.pt

iAlimentar - Informação profissional para a indústria alimentar portuguesa

Estatuto Editorial