“Gerir grandes volumes de referências sem apoio digital deixou de ser viável: fazer a gestão de stocks de centenas ou milhares de referências deverá ser com um WMS, frequentemente associado a tecnologias como leitura de códigos de barras, pick-to-light ou voice-picking. Estas soluções ajudam a reduzir erros na preparação de encomendas, reforçam o controlo de localizações e aumentam a produtividade”, Afonso Almeida, presidente da APLOG.
A crescente complexidade das cadeias alimentares, marcada pela multiplicidade de intervenientes e pela dispersão geográfica das operações, tem vindo a colocar desafios adicionais às empresas. De acordo com a associação, a produção, o armazenamento, o transporte e a distribuição deixaram de ser etapas isoladas para passar a integrar um sistema altamente interdependente, onde qualquer falha pode ter impacto imediato na qualidade do produto e nos custos operacionais.
Redes de abastecimento mais longas, consumidores mais atentos e uma pressão constante sobre custos e desperdício obrigam as empresas a repensar a forma como armazenam, transportam e monitorizam os alimentos. A APLOG destaca que esta necessidade de controlo e acesso granular à informação operacional é hoje central para garantir eficiência e competitividade.
Esta evolução é também evidenciada pela investigação. Segundo um relatório da EU CAP Network (2025), que aponta as plataformas digitais, a blockchain e os sistemas logísticos colaborativos como ferramentas essenciais para melhorar a eficiência e a coordenação nas cadeias de abastecimento alimentares europeias.
Como explica Afonso Almeida, da APLOG, gerir grandes volumes de referências sem apoio digital deixou de ser viável: fazer a gestão “de stocks de centenas ou milhares de referências deverá ser com um WMS”, frequentemente associado a tecnologias como leitura de códigos de barras, pick-to-light ou voice-picking. Estas soluções ajudam a reduzir erros na preparação de encomendas, reforçam o controlo de localizações e aumentam a produtividade.
Mas, como sublinha a associação, o verdadeiro ganho surge quando estes sistemas deixam de funcionar isoladamente e passam a estar integrados com outras plataformas, garantindo uma visão contínua da operação logística e eliminando silos de informação.
No transporte, essa evolução traduz-se numa maior capacidade de planeamento e adaptação. Os sistemas de gestão de transporte evoluíram para além da simples organização de rotas e incorporam hoje dados atualizados de forma contínua, analisando variáveis externas e ajustando decisões à medida que a operação decorre.
A inteligência artificial começa também a assumir um papel cada vez mais relevante. De acordo com a APLOG, a sua aplicação na logística permite antecipar necessidades, melhorar o planeamento e identificar potenciais falhas, incluindo em sistemas críticos como os de refrigeração. A IA está também a ganhar peso na previsão da procura e na otimização de rotas, contribuindo para reduzir consumos de combustível, tempos de entrega e custos operacionais, enquanto melhora a taxa de utilização dos veículos.
A Internet das Coisas (IoT) acrescenta uma camada crítica de monitorização contínua às operações logísticas. Sensores instalados em câmaras frigoríficas, armazéns e veículos permitem acompanhar variáveis como temperatura e humidade, assegurando um controlo mais rigoroso das condições de conservação. “A visibilidade da localização da carga e das condições de temperatura são vitais para a segurança alimentar e para o controlo da operação”, sublinha Afonso Almeida, destacando o papel crescente de sensores, etiquetas inteligentes e sistemas de rastreio na transparência da cadeia logística.
Quando ocorre um desvio, a resposta pode ser imediata, reduzindo riscos operacionais e evitando perdas que, de outro modo, só seriam identificadas demasiado tarde.
Ferramentas como o FLOW M, desenvolvida pela Flowtech, exemplifica esta evolução ao assegurar o controlo imediato e permanente de toda a operação logística, desde a receção de matérias-primas até à expedição do produto final. A plataforma integra funcionalidades como gestão de inventários, controlo de localizações, gestão de expedições e planeamento da produção.
De acordo com João Nogueira, business development manager na Flowtech, estas ferramentas traduzem-se, na prática, em “menos ruturas, menos excesso de stock, menos desperdício e maior capacidade de resposta operacional”.
A empresa destaca ainda que estas soluções asseguram uma gestão mais dinâmica dos armazéns, com acompanhamento constante de stocks e fluxos logísticos, apoiando decisões mais rápidas e fundamentadas.
Assim, neste caso em concreto, a digitalização reduz o número de tarefas manuais, diminui erros de registo e melhora a articulação entre produção, armazém e expedição. No terreno, isso traduz-se em operações mais fluidas e menos dependentes de correções posteriores.
A rastreabilidade é mais uma área onde a transformação é evidente. Segundo a Flowtech, a possibilidade de associar cada lote a um conjunto completo de dados – desde a origem às condições de armazenamento ou ao percurso logístico – permite criar um histórico detalhado, completo e acessível de forma imediata. Ou seja, saber de onde vem um produto e por onde passou deixou de ser uma consulta demorada para passar a ser uma resposta quase instantânea.
Na prática, esta rastreabilidade resulta da digitalização dos próprios processos operacionais. “O sistema regista de forma sequencial todas as etapas do processo produtivo, permitindo saber quem fez o quê e quando”, explica João Nogueira, sublinhando que esta abordagem reforça o controlo e a auditabilidade. A integração com tecnologias como códigos GS1 (padrão global de identificação), DataMatrix (código 2D para rastreabilidade) ou RFID (identificação por radiofrequência) permite automatizar a identificação de produtos e reduzir a intervenção manual, aumentando a fiabilidade da informação.
Este nível de detalhe é particularmente relevante num setor onde a segurança alimentar está em causa, facilitando a identificação rápida de lotes afetados e a atuação de forma direcionada.
Esta capacidade permite não só detetar desvios, mas também gerar alertas automáticos sempre que são ultrapassados limites críticos, permitindo uma intervenção imediata e reduzindo significativamente o risco de perdas de produto.
Uma revisão científica publicada em 2025 na revista Frontiers in Blockchain analisou a utilização de tecnologias digitais na cadeia alimentar europeia e concluiu que ferramentas como blockchain, RFID e sensores IoT estão a reforçar a traçabilidade e a transparência ao longo da cadeia de abastecimento. Estes sistemas acompanham produtos em tempo real, facilitam a gestão de incidentes e melhoram os processos de recolha em caso de contaminação ou fraude alimentar. A digitalização dos sistemas de Análise de Perigos e Controlo de Pontos Críticos (HACCP) insere-se nesta lógica de reforço do controlo, integração e rastreabilidade.
Em Portugal, a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP) tem vindo a promover a digitalização dos processos de segurança alimentar no canal HORECA, nomeadamente através do desenvolvimento do HACCP Digital AHRESP, criado em parceria com a TechGuild.
A solução permite digitalizar registos essenciais do sistema HACCP – como controlo de temperaturas, receção de matérias-primas, verificação de processos e planos de higienização – criando um histórico estruturado que facilita o acompanhamento das condições de conservação e o cumprimento dos requisitos legais.
A plataforma MyTask, da TechGuild, integra módulos como HACCP, sensores, etiquetas, auditorias e gestão documental num único sistema. Esta centralização permite substituir registos em papel, automatizar processos e assegurar a monitorização contínua de parâmetros críticos, como a temperatura, com alertas automáticos em caso de desvio.
De acordo com a empresa, a digitalização melhora o controlo das operações, reforça a rastreabilidade e reduz o risco de perdas associadas à cadeia de frio, ao mesmo tempo que liberta as equipas de tarefas administrativas e aumenta a eficiência global.
A APLOG realça que esta capacidade torna possível reagir a imprevistos, ajustando rotas e minimizando impactos.
A integração entre produtores, distribuidores e retalho é outro dos benefícios desta transformação. A partilha de informação em tempo real favorece uma melhor coordenação entre diferentes etapas da cadeia de abastecimento. Esta integração permite alinhar produção, armazenamento e distribuição com maior precisão, reduzindo ineficiências e melhorando o nível de serviço ao cliente.
Tal conectividade é particularmente relevante num setor onde a rapidez e a fiabilidade das entregas são fatores críticos.
A melhoria da rastreabilidade é outro dos ganhos mais relevantes, assegurando o acompanhamento de cada lote ao longo da cadeia e uma resposta rápida a incidentes.
A digitalização reforça igualmente a capacidade de resposta à procura. A análise de dados e a utilização de modelos preditivos facilitam o ajuste da produção e da distribuição, reduzindo ruturas de stock.
Mas se, por um lado, é fácil identificar as vantagens, por outro também não faltam desafios. Desde logo, o investimento necessário, sobretudo para pequenas e médias empresas. Isto porque, como lembra Afonso Almeida, estas organizações têm, em geral, menor capacidade para realizar investimentos de grande dimensão.
A integração com sistemas existentes é outro entrave relevante. Muitas empresas operam com infraestruturas tecnológicas heterogéneas, o que dificulta a implementação de soluções digitais de forma integrada. Em muitos casos, os sistemas existentes exigem adaptações ou desenvolvimentos adicionais para garantir compatibilidade, aumentando a complexidade dos projetos.
A formação de recursos humanos é igualmente determinante. “Uma formação inadequada pode comprometer o retorno do investimento”, adverte o líder da APLOG. No caso da Flowtech, a formação é orientada para a prática e para os processos reais da operação, facilitando a adoção das soluções pelas equipas: “A aceitação por parte das equipas é facilitada pela simplificação das tarefas e pela redução de erros no dia a dia”, refere João Nogueira.
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