O mundo tem vivido várias mudanças nos sistemas alimentares, e as alterações climáticas influenciam diretamente a produção e a indústria deste setor. Este é apenas um dos aspetos referidos na resenha histórica realizada no Relatório Global Food Policy Report 2025: Food Policy: Lessons and Priorities for a Changing World, publicado pelo International Food Policy Research Institute (IFPRI), que aponta pistas para o crescimento futuro e considera como outros problemas — além das alterações climáticas — “a desaceleração do crescimento agrícola, a escalada da obesidade e das doenças não transmissíveis e os conflitos armados”.
Os problemas estão identificados. Este relatório reforça que as políticas baseadas em evidências são fundamentais para transformar os sistemas alimentares globais. Para tal, apresenta seis prioridades principais até 2050. São elas: resiliência e inclusão (investir em soluções contextualizadas para populações mais afetadas por conflitos, desastres e pobreza persistente); nutrição e ambientes alimentares saudáveis (combater as deficiências nutricionais e a obesidade, promovendo dietas mais saudáveis e sustentáveis); novas tecnologias (garantir que as inovações digitais e científicas sejam acessíveis e orientadas para o bem público, evitando o aprofundamento das assimetrias); envolvimento com o setor privado (estimular investimentos em investigação e desenvolvimento) e parcerias interdisciplinares e fortalecimento de capacidades locais (investir na formação de capital humano para liderar transformações ao nível local).
E em Portugal? Como está o país a adaptar-se à instabilidade do clima? Está a fazê-lo de forma progressiva ao novo contexto climático, refere Vítor Alves, professor associado com agregação do Instituto Superior de Agronomia (ISA). E, neste contexto, existem desafios a ultrapassar. “As necessidades de adaptação variam muito consoante a área de atuação das empresas e com a sua dimensão. Para viabilizar a transição para modelos mais eficientes e sustentáveis, muitas empresas têm-se candidatado aos apoios do PRR [Plano de Recuperação e Resiliência] e do PEPAC [Plano Estratégico da Política Agrícola Comum], que financiam investimentos em automação, digitalização e transição energética.” Estes apoios permitem “a modernização dos processos de fabrico, a adoção de tecnologias para uso mais eficiente da água e da energia e a melhoria dos processos de refrigeração e conservação”, avança o também investigador do Centro de Investigação LEAF e do Laboratório Associado TERRA.
O investimento em novos equipamentos e na digitalização é benéfico, mas existem “estratégias mais simples que podem ser implementadas sem exigir um investimento financeiro imediato elevado”. Vítor Alves explica: “É possível trabalhar no fortalecimento e flexibilização da cadeia de abastecimento, aumentando a interação contínua com produtores primários de diferentes regiões, para reduzir o risco de escassez localizada; e apostar na produção própria ou estabelecer parcerias estratégicas com controlo direto sobre a matéria-prima (como no caso das cooperativas)”.
Portugal encontra-se entre os países europeus mais atingidos por situações extremas de clima, especialmente ondas de calor e largos períodos sem precipitação significativa, originando períodos de seca e incêndios florestais recorrentes, alerta o professor. Essas condições afetam, desde logo, a produção primária e originam reduções de rendimento. “Por outro lado, têm apressado a adoção de estratégias de resiliência, tais como a implementação de tecnologias avançadas de irrigação e de monitorização hídrica, de culturas adaptadas e de seguros indexados ao clima”. A pressão exercida sobre a produção primária traduz-se em impactos diretos nas “indústrias de transformação alimentar e distribuição, nomeadamente através da volatilidade dos preços e da redução na disponibilidade de matérias-primas estratégicas”.
A opinião de Vítor Alves é partilhada por Patrícia Coelho, presidente da InovCluster – Associação do Cluster Agro-industrial do Centro. “Portugal tem uma localização de excelência; no entanto, pelas suas características geográficas e climáticas, acaba por estar num patamar de vulnerabilidade”, afirma. A escassez hídrica e o aumento das temperaturas a limites cada vez mais extremos têm afetado “culturas estratégicas, reduzido mesmo rendimentos agrícolas, por um lado, e, por outro, aumentado os custos de produção”. Ondas de calor, secas prolongadas e escassez hídrica “já não são eventos esporádicos, mas sim desafios estruturais que impactam diretamente o setor agroalimentar — que é um dos pilares da economia nacional e o foco estratégico da InovCluster”.
A InovCluster apoia empresas e produtores na adoção de práticas agrícolas regenerativas, uso inteligente da água, digitalização e aproveitamento de dados climáticos, além de promover projetos colaborativos que visam o desenvolvimento de soluções adaptadas às realidades locais. “Acreditamos que só através da inovação, da cooperação e de uma visão estratégica de longo prazo conseguiremos transformar este contexto adverso em vantagem competitiva para o setor agroalimentar português.”
Nem de propósito, na última semana, a InovCluster foi um dos projetos aprovados a nível europeu na 'call Joint' Cluster Initiatives (EUROCLUSTERS) for Europe’s recovery — o GATE5.0 – Green and Digital Transitions for a Sustainable European Agrifood Ecosystem. “Este projeto ambicioso tem como missão acelerar a transição verde e digital do setor agroalimentar europeu, em alinhamento com o Green Deal e a estratégia Farm to Fork”, explica Patrícia Coelho. Através da aplicação de tecnologias de ponta no âmbito da Agricultura 5.0, “como a Internet das Coisas (IoT), a Inteligência Artificial (IA), a robótica e a agricultura de precisão, o projeto pretende otimizar o uso de recursos, reforçar a resiliência climática, reduzir o impacto ambiental e promover, simultaneamente, a produtividade e a sustentabilidade do setor”.
Segundo o estudo Adaptação e Mitigação das Alterações Climáticas: Um Sistema Alimentar e Setor Agropecuário Agroecológicos em Portugal, “a região mediterrânica, incluindo Portugal, está vulnerável a temperaturas mais altas, eventos extremos, reduzida precipitação e secas prolongadas. Espera-se que a produtividade agrícola caia entre 15 % e 25 % até 2050, devido à escassez de água”. Outro estudo, intitulado Assessment of Climate Change Impacts of Chilling and Forcing for the Main Fresh Fruit Regions in Portugal, publicado no jornal académico Frontiers in Plant Science, revela que as reduções do frio de inverno e o aumento das horas de calor têm provocado um risco de stresse térmico para a produção tradicional em algumas regiões, como a Beira Alta, a Cova da Beira e o Algarve.
Os eventos extremos, como a seca e as ondas de calor recorrentes, têm afetado as culturas nacionais. E isto justifica o facto de existirem já empresas a trabalhar “no desenvolvimento de produtos resilientes às alterações climáticas e alinhados com as novas exigências do consumidor sustentável, em ações que incluem o aproveitamento de subprodutos agroindustriais e a revisão das formulações para privilegiar ingredientes de origem local e com maior resistência ambiental”, explica Vítor Alves.
Passou a existir, então, uma preocupação antecipatória que leva a que um número crescente de empresas passe a integrar o risco climático nos seus modelos de gestão. Como? Na prática, através do desenvolvimento de planos de contingência que incluem, entre outras medidas, “a criação de stocks de segurança, o reforço de seguros e a implementação de sistemas de resposta a emergências”, destaca o docente. E acrescenta: “Paralelamente, a pressão por maior transparência ambiental — tanto por parte do mercado como dos reguladores — tem alertado as empresas para a importância de adotar certificações como a ISO 14001 ou o EMAS (Sistema Comunitário de Ecogestão e Auditoria), implementar rotulagem de carbono nos seus produtos e assegurar a conformidade com critérios ESG (ambientais, sociais e de governação), fatores cada vez mais relevantes para a exportação e captação de investimento”.
São alguns os progressos, mas o setor agroindustrial continua a enfrentar obstáculos relevantes, como “o acesso limitado a financiamento, sobretudo para PME, alguma falta de literacia climática e a resistência à mudança em segmentos mais tradicionais, que continuam a dificultar a transição para modelos mais resilientes”.
O setor alimentar — e agroindustrial — desempenha um duplo papel crítico no contexto das alterações climáticas. Por um lado, é vulnerável a fenómenos extremos, como ondas de calor que afetam diretamente a produção animal e vegetal, ou secas prolongadas que comprometem a disponibilidade de água. “Estes impactos traduzem-se em quebras de produtividade e aumento de custos ao longo de toda a cadeia, do prado ao prato”, defende Vítor Alves. Por outro lado, “é inegável que o sistema alimentar global é também responsável por uma parte significativa das emissões de gases com efeito de estufa (GEE)”. Portugal acompanha esta tendência, “ainda que com níveis de emissão inferiores aos de países mais industrializados”. É preciso encontrar o equilíbrio entre a adaptação e a mitigação e, para tal, existem estratégias já em curso para reduzir a pegada ambiental dos sistemas alimentares”.
Entre elas, destaca-se o investimento na descarbonização do setor, a adoção de práticas agrícolas regenerativas, a redução do uso de fertilizantes químicos, bem como a reformulação de processos industriais para melhorar a eficiência e minimizar o desperdício”.
Existem também exemplos de empresas que já estão a liderar esta transição: desenvolvem produtos adaptados às novas condições climáticas, valorizam subprodutos agroindustriais, reduzem a dependência de matérias-primas vulneráveis e apostam em energias renováveis. “Estas iniciativas, não só aumentam a resiliência operacional das empresas, como reforçam a sua competitividade num mercado global cada vez mais atento aos critérios ESG”.
“O setor agroalimentar enfrenta de forma muito evidente o dilema de ser simultaneamente vítima e agente das alterações climáticas. Por um lado, é altamente vulnerável aos impactos — como secas prolongadas, escassez hídrica e eventos extremos que afetam diretamente a produção agrícola e a estabilidade da cadeia de abastecimento”, refere Patrícia Coelho. Por outro, o setor é responsável por uma parte significativa das emissões de gases com efeito de estufa: cerca de 11% das emissões da indústria transformadora e aproximadamente 2% das emissões nacionais totais, como apontado no Roteiro de Descarbonização, projeto do qual, a InovCluster é promotora, juntamente com a Portugal Foods.
Não há uma resposta com apenas uma dimensão. Há que procurar o equilíbrio através da transformação sistémica em três pilares essenciais: eficiência, inovação e circularidade. “A nível da InovCluster, temos vindo a trabalhar com as empresas do setor para identificar medidas concretas — como a eletrificação de processos térmicos, o aproveitamento de resíduos para produção de biogás ou biometano, e a aposta em fontes de energia solar — que reduzem a pegada carbónica sem comprometer a viabilidade económica”.
Além disso, a associação promove práticas de agricultura regenerativa, soluções digitais de monitorização hídrica e valorização de subprodutos, alinhadas com os princípios da bioeconomia e da neutralidade carbónica. “O setor alimentar tem a oportunidade única de liderar a transição verde, não apenas mitigando os seus impactos, mas tornando-se parte ativa da solução. Para isso, é essencial uma abordagem colaborativa, integrada e com visão de longo prazo, onde a InovCluster se posiciona como facilitadora estratégica dessa transformação”. A presidente acrescenta uma nota final, continuamente transmitida às empresas: “O custo de não fazer nada é muito superior ao de investir em soluções alternativas, e por isso procuramos capacitar todos os agentes do setor para as medidas e soluções disponíveis”.
Destaque ainda para a agricultura de precisão para otimizar colheitas, alimentos que sejam cada vez mais enriquecidos com ingredientes saudáveis, o reaproveitamento de subprodutos com objetivos claros de reduzir o desperdício. “Destaco o papel da InovCluster no apoio à inovação e transferência de conhecimento, ligando empresas, centros de investigação e entidades públicas. O foco passa por antecipar riscos, diversificar cadeias de abastecimento e apostar em modelos de economia circular”.
Nos últimos tempos, a associação tem submetido várias candidaturas a diversos projetos com o objetivo de trabalhar esta temática, pois, segundo a Agência Europeia do Ambiente, 46% da média anual de água utilizada na União Europeia deve-se ao setor agrícola, sobretudo na irrigação de culturas. E, dado que a agricultura é responsável por quase metade da água utilizada, há que fomentar práticas sustentáveis, com melhor uso dos recursos hídricos.
“É por isso que temos ambição de, num futuro próximo, trabalhar projetos que visem proteger e conservar os recursos hídricos pela melhoria na eficiência de utilização de água pelo setor agrícola”. As principais realizações incluem a implementação de práticas sustentáveis e eficientes de gestão da água e solo, promoção do cultivo de culturas resistentes à seca e desenvolvimento de novos produtos alimentares funcionais com base em ingredientes destas culturas.
Com ondas de calor cada vez mais intensas e frequentes, os sistemas de transporte e os armazéns refrigerados têm de trabalhar em condições mais difíceis, o que exige mais energia para manter a temperatura ideal. “Uma falha na cadeia de frio, mesmo que breve, pode pôr em causa a segurança e a qualidade dos produtos. Além disso, os equipamentos acabam por se desgastar mais rapidamente, precisando de manutenção e substituição frequentes”, acrescenta.
Há ainda outro desafio, que consiste na mudança dos fluidos refrigerantes. “Muitos equipamentos ainda utilizam gases que contribuem para o aquecimento global e que, por isso, estão a ser proibidos pela legislação europeia. A transição para tecnologias mais sustentáveis exige investimentos que podem ser difíceis para as pequenas e médias empresas”.
Os eventos climáticos extremos têm ainda um impacto significativo na cadeia de abastecimento e logística, manifestando-se tanto na escassez de matérias-primas como no aumento dos custos operacionais. “Fenómenos como secas prolongadas, ondas de calor e cheias prejudicam diretamente a produção agrícola, causando quebras e maior instabilidade na disponibilidade de produtos”. Esta variabilidade complica o planeamento logístico e exige ajustes frequentes, que aumentam os custos de armazenamento, transporte e gestão de stocks. “Ao mesmo tempo, obriga a investimentos em tecnologias mais eficientes e resilientes, refletindo-se inevitavelmente no preço final dos produtos".
No que respeita especificamente à eficiência energética, as unidades industriais enfrentam condições ambientais mais severas, “o que obriga os equipamentos de refrigeração a operar por períodos mais longos e a intensificar o seu funcionamento para manter as condições ideais de temperatura e humidade”, destaca Vítor Alves. Este esforço adicional traduz-se num aumento substancial do consumo energético, elevando os custos operacionais e a pegada ambiental das empresas. Além disso, o desgaste acelerado dos sistemas de refrigeração pode aumentar a necessidade de manutenção e substituição de equipamentos, acarretando custos adicionais.
“Com o aumento das temperaturas médias e a frequência de eventos extremos, torna-se mais difícil e dispendioso manter as condições ideais de conservação, segurança alimentar e conforto térmico”, afirma Patrícia Coelho. E justifica: “Isso traduz-se num maior consumo energético, sobretudo nos sistemas de frio industrial e climatização, que já representam uma fatia considerável da fatura energética do setor”.
O setor agroalimentar enfrenta uma crescente escassez hídrica, que afeta diretamente os processos industriais — desde o processamento até à higienização de equipamentos. A projeção linear do consumo de água indica a necessidade de medidas urgentes. “Neste sentido, o roteiro recomenda a monitorização rigorosa do uso da água, a adoção de tecnologias digitais de controlo e a implementação de sistemas de irrigação inteligente, especialmente quando falamos de cadeias integradas com produção agrícola”, destaca Patrícia Coelho.
Resumindo, as alterações climáticas agravam os desafios operacionais e económicos da indústria alimentar, mas também aceleram a necessidade de transição para soluções mais eficientes, inteligentes e sustentáveis. “Na InovCluster, temos acompanhado esta evolução e apoiado as empresas a adaptarem-se com base em conhecimento técnico, inovação colaborativa e políticas públicas orientadas para a neutralidade carbónica”, acrescenta a responsável.
Uma vez que os períodos de seca prolongada e a alteração dos padrões de precipitação podem limitar a disponibilidade de água nas várias etapas da produção alimentar, as indústrias “devem implementar estratégias de gestão hídrica mais eficientes, como a reutilização de águas residuais, sistemas de recirculação e tecnologias de menor consumo, para reduzir o impacto ambiental e garantir a continuidade da produção”, sublinha Vítor Alves.
A Portugal Foods apresentou alguns dados da fase final do 'Roteiro para a Descarbonização do Setor Agroalimentar', no passado dia 9 de julho, no Centro de Congressos da Alfândega do Porto. Este roteiro resulta de um consórcio entre a Portugal Foods, a InovCluster – Associação do Cluster Agroindustrial do Centro, e a Câmara Municipal de Ponta Delgada.
“A indústria alimentar e de bebidas tem um impacto razoável naquilo que é o total de emissões de gases com efeito de estufa (GEE), com 11% do total das emissões da indústria transformadora em Portugal e cerca de 2% das emissões GEE totais nacionais”, explicou Deolinda Silva, diretora-executiva da Portugal Foods.
Este consórcio contou com algumas entidades técnicas para o acompanhamento e a consolidação da informação durante o período do projeto. “Este roteiro quis traçar medidas gerais para o setor e também mais específicas para as fileiras com maior impacto nas emissões”, referiu a responsável.
E que fileiras são essas? A carne, os lacticínios, os cereais e a panificação, a preparação e a conservação de frutos e produtos agrícolas, as bebidas alcoólicas e não alcoólicas. Foram lançados muitos inquéritos às empresas e realizadas algumas visitas selecionadas.
“Criámos grupos de trabalho e investimos na capacitação das empresas”, afirmou Deolinda Silva.
A principal evolução do setor desde 2012 foi feita através da substituição dos produtos petrolíferos e dos combustíveis fósseis, do GPL e do fuelóleo, pelo gás natural. Este consumo de energia final manteve-se estável e originou uma redução de cerca de 30% da emissão de GEE, acrescentou.
A diretora-executiva da Portugal Foods contextualizou ainda o Plano Nacional Energia e Clima 2030 e o Roteiro para a Neutralidade Carbónica 2050 com “metas bastante ambiciosas”, com a redução das emissões em 50% até 2030 e em 90% até 2050.
“Foram estas as metas adotadas em todo o trabalho realizado durante a elaboração deste roteiro. Também sabemos que foram identificados quatro eixos de transição principais: eficiência energética, utilização de renováveis, descarbonização pela eletricidade e eletrificação do consumo”.
O trabalho realizado com este roteiro partiu da identificação de cenários que seguem o pressuposto de continuar a crescer em termos de produção e de competitividade.
“Trabalhámos três grandes temáticas neste roteiro: digitalização, energia e economia circular.”
Com base nos dados dos inquéritos e das entrevistas realizadas, conclui-se que “apenas 43% das empresas estão no nível I de digitalização, o que significa que dependem ainda de sistemas de processamento de dados, mas os processos ainda não estão bem definidos, e recomenda-se a aposta em formação e consciencialização dos conceitos da Indústria 4.0”, explicou Deolinda Silva.
Outros dados indicam que 30% das empresas estão no nível II de comunicação, 17% no nível de visibilidade e apenas 2% se situam no nível IV de transparência.
No que respeita à maturidade digital do setor, percebeu-se que estão a ser dados passos iniciais “na digitalização, e que algumas tecnologias, como a integração eletrónica de dados ou o IoT, têm ainda uma adoção muito limitada, o que revela alguma resistência à mudança, e que a maioria das empresas não utiliza ainda inteligência artificial, realidade virtual, realidade aumentada ou até os digital twins”.
A maioria das empresas reconhece o potencial destas tecnologias, o que significa que ambiciona um futuro mais conectado, mais eficiente e mais competitivo. Este roteiro traça, assim, um roteiro da digitalização (tradução de roadmap, por consistência), que integra as várias etapas da digitalização da indústria, desde a otimização de processos à automação total. Existe aqui uma visão muito estratégica. O setor caminha para a transição digital até 2050.
Relativamente à circularidade, qualidade do ar e recursos hídricos, Deolinda Silva referiu que a valorização de subprodutos e o aproveitamento da circularidade dos processos industriais ao limite deve ser um objetivo.
“Percebemos que o setor das carnes é aquele que gera mais desperdício, e estamos a falar só da parte industrial, não falando a montante nem a jusante – embora saibamos que os sistemas devem ser trabalhados em conjunto e são indissociáveis – e que a valorização de produtos é essencial no trabalho da própria empresa e no impacto que se quer na sustentabilidade do planeta”.
Esta valorização pode ser feita através do reaproveitamento de nutrientes ou compostos de valor acrescentado, e os subprodutos e resíduos devem ser reintegrados, tanto quanto possível, na cadeia de valor.
O roteiro identifica que o reprocessamento dos resíduos permite diminuir a pegada carbónica de forma impactante.
“Num cenário ideal, podemos reduzir as emissões associadas aos resíduos orgânicos em 42% até 2050”, afirmou Deolinda Silva.
E, no que respeita ao consumo de água, o mesmo “quase não aumentará, mesmo partindo do princípio de que haverá um aumento de produção”.
O roteiro apresenta também algumas medidas adicionais para os vários projetos que as empresas têm vindo a trabalhar, seja na área da embalagem, seja na da biodiversidade – e também no que respeita à água e à diversificação; tal como propostas de trajetórias custo-eficazes de reduções de emissões de GEE no setor. “Os objetivos de redução de GEE são atingidos por quase todos os cenários até 2030, mas só pelos mais ambiciosos em 2050”, destacou a diretora-executiva da Portugal Foods.
Uma conclusão muito importante deste roteiro é a questão da análise do custo versus as medidas para a redução das emissões, relativamente ao ano base de 2020. “Quanto mais ambiciosa for a transição – quer por via da eletrificação, quer por via da integração dos gases renováveis para substituição do gás natural –, menor é o custo total”.
Isto significa que “não fazer nada é a opção mais cara, o que significa que vale a pena investir, não só devido às questões ambientais, mas também em termos de negócio”.
“Estando agora na fase final do projeto, acautelámos a submissão de uma candidatura, em conjunto com outras entidades relevantes do setor, para dar continuidade a este trabalho, catalisar e disseminar os resultados deste roteiro”, explica Patrícia Coelho.
Adicionalmente, a InovCluster tem liderado projetos de valorização de subprodutos agroindustriais, como foi o caso do Reinova, um projeto POCTEP, com o duplo objetivo de reduzir resíduos e criar produtos de valor acrescentado, promovendo a circularidade e a bioeconomia no setor. “Estas iniciativas alinham-se com as metas nacionais de neutralidade carbónica e com os objetivos do Pacto Ecológico Europeu”.
Todos os projetos submetidos nesta fase de arranque de um novo quadro comunitário partilham um denominador comum: “a promoção de um setor alimentar mais resiliente, eficiente e sustentável, com base na inovação colaborativa e na capacitação contínua das empresas portuguesas”.
A ligação entre empresas e investigação é crucial.
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