As alterações climáticas deixaram de ser uma ameaça distante e já influenciam o nosso dia a dia, alterando o que comemos e como comemos. Fenómenos como secas, cheias e ondas de calor afetam a agricultura, diminuindo a quantidade e qualidade dos alimentos, e tornando alguns produtos escassos ou indisponíveis, o que modifica os nossos hábitos alimentares. Face a este desafio, todo o sistema alimentar está a ser repensado. O modelo agrícola intensivo, que consome muitos recursos naturais e prejudica a biodiversidade, está a dar lugar a práticas que produzem mais com menos, reduzindo desperdícios e valorizando subprodutos. Há também um esforço para regenerar os solos, através da rotação de culturas, adubos naturais e promoção da biodiversidade, aumentando a resiliência agrícola. Esta mudança exige uma visão integrada de toda a cadeia alimentar e cooperação entre os setores agroalimentar, ambiental, económico e da saúde. Cada pessoa pode contribuir, evitando desperdícios e preferindo produtos locais e sazonais. Repensar a relação com a comida é vital para proteger o planeta e garantir alimentos suficientes, acessíveis e sustentáveis.
A indústria reorganiza-se segundo a economia circular, promovendo cadeias de abastecimento curtas, minimizando desperdícios e reintegrando nutrientes. Esta transformação requer investimento contínuo em investigação para soluções eficientes e viáveis, tornando a indústria mais resiliente. O Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia da Universidade Católica Portuguesa desempenha um papel importante neste processo, com vários grupos de investigação dedicados à inovação e sustentabilidade.
Mitigar os impactos climáticos na indústria agroalimentar exige uma abordagem integrada que vá além da valorização de resíduos. É crucial descarbonizar os processos produtivos, usando energias renováveis (solar, biogás, etc). e melhorar a eficiência energética em toda a cadeia. A gestão sustentável da água, com tecnologias que otimizam o consumo e promovem a reutilização, é igualmente prioritária. Outras soluções passam pela biotecnologia alimentar, processos avançados de fermentação, digitalização e automação para aumentar a eficiência, agricultura de precisão para reduzir impactos ambientais, e inovação em embalagens sustentáveis para minimizar desperdícios. Aliadas à economia circular, estas medidas tornam a indústria mais eficiente e ambientalmente responsável.
As políticas públicas devem promover a cooperação entre indústria, academia e centros de investigação, apoiando start-ups que acelerem a transição para sistemas alimentares sustentáveis. Por fim, é fundamental aumentar a literacia alimentar e ambiental dos consumidores, incentivando hábitos responsáveis e a aceitação de alimentos sustentáveis, com certificação rigorosa baseada em evidência científica, para garantir transparência e confiança.
Manuela Pintado
Diretora do Centro de Biotecnologia e Química Fina da Escola Superior de Biotecnologia, da Universidade Católica Portuguesa.
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