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Indústria de Café

Das cápsulas compostáveis aos materiais orgânicos e resíduos com segunda vida

Gabriela Costa11/09/2023

A inovação e a sustentabilidade deverão impulsionar um cenário competitivo na indústria do café, onde produtores e empresas de embalagens se aliam para criar novos produtos desenvolvidos a pensar em soluções compostáveis e biodegradáveis, materiais orgânicos e alumínio, ou admiráveis aplicações para reutilizar cápsulas de café.

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A venda de café no mercado interno cresceu progressivamente desde 2017 até 2019 - ano em que atingiu um valor superior a 700 milhões de euros, equivalente a quase 33 milhões de quilos -, sofrendo uma quebra significativa com a pandemia, em 2020 (menos de 610 milhões de euros e 26,4 milhões de quilos). Dados da Nielsen revelam ainda que a recuperação é lenta, com 2021 a registar valores semelhantes (pouco mais de 610 milhões de euros e 25,6 quilos). Já de acordo com dados mais recentes da Euromonitor, as vendas em valor no retalho caíram 6% em termos atuais em 2022, para 630 milhões de euros.

A nível de exportações, e segundo dados do INE, o café revela um comportamento negativo em 2022: menos 15,2% de quilos exportados (mas apenas menos 2,72% em valor) que em 2021. No mesmo período, as importações registaram uma variação de 14,34% e 12,84%, respetivamente.

A nível de produção mundial os desafios são muitos: o avanço crescente das alterações climáticas está a ter um impacto negativo nalguns dos maiores países produtores de café, como o Brasil e a Colômbia, “com condições climáticas desfavoráveis que afetam as colheitas de grãos de café”, conclui a Euromonitor.

Por outro lado, os fabricantes também foram atingidos por problemas relacionados com transporte e logística, que culminaram “em um aumento considerável no preço do café verde em 2022”. As “atuais inconsistências observadas nos mercados financeiros, juntamente com a expectativa de mais inflação no preço das matérias-primas e energia”, também justificam os aumentos de preços.

A Euromonitor alerta ainda que, com o custo de vida “a subir em espiral”, o consumo de café poderá ser impactado negativamente, com os consumidores locais a serem cada vez mais forçados a reduzir seu consumo ou a mudar para produtos e marcas mais acessíveis.

Numa conjuntura onde prevalece, ainda assim, a procura por experiências de café premium e o desenvolvimento de novos produtos de nicho (opções orgânicas e veganas), “a inovação e a sustentabilidade provavelmente impulsionarão o cenário competitivo”, conclui a consultora internacional de análise de dados.

E a verdade é que a inovação de produto é um fator de diferenciação que, na indústria do café, tende a ser cada vez mais ecológico. Não só no que respeita à qualidade do produto, mas especialmente no que toca à embalagem. As marcas apostam cada vez mais na inovação, garante a Euromonitor, concluindo que em 2022 surgiram no mercado sistemas inovadores para cápsulas de café como o Vertuo e o RISE (Reverse Injection System), e mais marcas passaram a oferecer ao consumidor cápsulas em alumínio, material extremamente reciclável e facilmente reutilizado em novos objetos.

As cápsulas de café de alumínio são as mais recicláveis, embora não o sejam a 100%

As cápsulas de café de alumínio são as mais recicláveis, embora não o sejam a 100%.

Marcas unidas pela reciclagem de cápsulas

Todos os anos cerca de sessenta mil milhões de cápsulas de café são colocadas no mercado, das quais menos de 25% são recicladas. As restantes são enviadas para aterros sanitários. Para inverter esta má prática, doze marcas de café - Bellissimo, Bogani, Buondi Caffè, Delta Q, Nescafé Dolce Gusto, Nespresso, Nicola, Segafredo, Sical, Starbucks, Torrié e UCC -, sob a égide da AICC - Associação Industrial e Comercial do Café, juntaram esforços para desenvolver um projeto inédito de reciclagem de ca´psulas de cafe´ com várias câmaras municipais. Apostando na sustentabilidade e “com vista a um bem social comum”, esta iniciativa pioneira de economia circular suportada pelas marcas pertencentes a seis empresas associadas da AICC, juntamente com os municípios, coloca à disposição do consumidor pontos de recolha de proximidade para reciclagem de cápsulas de café usadas.

Em novembro de 2022 a Cascais Ambiente e a Tratolixo foram as primeiras entidades a lançarem este sistema de reciclagem, que está já implementado em Cascais, Lisboa e Guimarães, prevendo-se “o seu alargamento a diversos concelhos do país em breve”, avança a AICC. Novas câmaras municipais “revelaram já interesse em aderir ao projeto”.

As cápsulas de alumínio ou de plástico depositadas nos pontos de recolha são entregues e armazenadas no Ecocentro e posteriormente seguem para o reciclador onde são tratadas, permitindo separar os distintos materiais e terem uma segunda vida: as borras de café convertem-se em composto orgânico para uso agrícola; o alumínio coletado funde-se de novo, uma vez que é infinitamente reciclável e pode ser transformado em novos objetos do quotidiano (esferográficas, lapiseiras, outros); e do plástico produz-se um material resíduo que se usará para fabricar mobiliário urbano, entre outros objetos.

As cápsulas de café Blue Circle biodegradáveis são especialmente inodoras e insípidas. Foto: Alpla

As cápsulas de café Blue Circle biodegradáveis são especialmente inodoras e insípidas. Foto: Alpla.

Cápsulas compostáveis cumprem Regulamento das Embalagens

Do lado das empresas de embalagens de café, vários são também os exemplos de novos produtos desenvolvidos a pensar em soluções compostáveis, biodegradáveis ou que privilegiam o alumínio e materiais orgânicos.

A Alpla lançou no primeiro semestre de 2023 uma nova geração de cápsulas de café compostáveis em casa. “Recicláveis, seguras, insípidas e inodoras”, estas cápsulas de café biodegradáveis para a marca Blue Circle são produzidas com um material orgânico, oferecem propriedades barreira e estão certificadas para compostagem doméstica.

Moldadas por injeção nas próprias instalações da empresa e produzidas com o design Blue Circle para obter os melhores resultados em termos de compatibilidade e manuseamento, estas cápsulas aliam material orgânico, design e processo de produção, o que é “fundamental para a estabilidade, estanqueidade e barreira das cápsulas”, de acordo com a especialista em soluções de embalagem de plástico.

Nicolas Lehner, CCO da Alpla, defende que, com as novas cápsulas Blue Circle, a Alpla oferece aos fornecedores de café, grossistas e embaladores uma alternativa para que atinjam os seus objetivos de sustentabilidade, ao mesmo tempo que age em conformidade com o novo Regulamento das Embalagens da UE, “que no futuro exigirá soluções compostáveis para embalagens de café de dose única”. A TÜV Áustria atribuiu as marcas de certificação ‘OK compost Home’ e ‘OK compost Industrial’ a toda a embalagem, incluindo a película de selagem e o conteúdo.

A gama GreenPetals inclui cápsulas de café, copos e palhetas produzidos a partir de materiais com certificação OK Compost Home...

A gama GreenPetals inclui cápsulas de café, copos e palhetas produzidos a partir de materiais com certificação OK Compost Home.

Linha de produtos para café Biobased

Já as empresas Turtle Petals e Speedturtle desenvolveram uma linha de produtos para café compostáveis em ambiente doméstico. A gama GreenPetals inclui cápsulas de café, copos e palhetas produzidos a partir de materiais com certificação OK Compost Home, ou seja, que se degradam entre seis a doze meses quando expostos aos microrganismos existentes no solo ou em um compostor doméstico.

Feita a partir de uma matéria-prima 100% proveniente de recursos naturais (Biobased), esta é uma linha de produtos biodegradáveis no solo que, depois de utilizados, podem ser colocados num compostor doméstico, no jardim ou no lixo orgânico, sem necessidade de envio para estações de compostagem industriais.

Este projeto já premiado nasceu da vontade das duas empresas em contribuir para resolver o problema ambiental causado pelo envio de milhões de cápsulas de café e de outros artigos de uso único utilizados para servir bebidas quentes, como os copos de café, para aterros sanitários.

O objetivo é “contribuir significativamente para uma Europa neutra em carbono”. Como defende Sandra Ruivo, responsável pela Turtle Petals, “os plásticos de base biológica feitos a partir de recursos renováveis desempenham um papel crucial no fecho do ciclo do carbono. Ao mesmo tempo, ajudam a aumentar a fertilidade do solo, uma vez que podem ser usados como fertilizante, com nutrientes dos resíduos biológicos na forma de composto de alto valor”.

Num mercado em crescimento, “existem poucas cápsulas certificadas como compostáveis em ambiente doméstico, o que dificulta a vida às marcas que procuram diferenciar o seu produto através de uma alternativa verdadeiramente sustentável”. Com design e fabrico otimizados, os produtos da linha GreenPetals (incluindo a cápsula PetalsPod) foram desenvolvidos de maneira a garantir a resistência mecânica adequada à sua utilização.

A linha GreenPetals foi desenvolvida ao longo dos últimos dois anos, tem protótipos testados e patente submetida. A Turtle Petals aguarda a conclusão do processo de certificação Ok Compost Home pela TÜV Áustria, para iniciar, ainda em 2023, a produção em larga escala.

As cápsulas de plástico descartadas podem ser usadas como matéria-prima para a fabricação de filamentos para impressão 3D...

As cápsulas de plástico descartadas podem ser usadas como matéria-prima para a fabricação de filamentos para impressão 3D. Foto de KouS9 Studio, Unsplash.

Economia circular transforma resíduos de café em recursos

São diversas as aplicações a dar às embalagens de café usadas, nomeadamente cápsulas, e a investigação científica em muito contribui para o desenvolvimento de novos produtos, inovadores e sustentáveis.

Investigadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de Campinas (Unicamp), no Brasil, e da Manchester Metropolitan University (MMU), no Reino Unido, descobriram que cápsulas de café usadas podem ser reutilizadas para produzir filamentos de impressão 3D, e testaram com sucesso esta alternativa, que é um exemplo de economia circular.

Um artigo publicado na revista ACS Sustainable Chemistry & Engineering explica como as cápsulas de plástico descartadas podem ser usadas como matéria-prima para a fabricação de filamentos para impressão 3D, entre outras opções.

São produzidos novos filamentos condutores e não condutores utilizando o polímero ácido poliláctico [PLA] proveniente das cápsulas de café. Esses filamentos “podem ser usados em diversas aplicações, incluindo peças condutoras para máquinas e sensores”, refere Bruno Campos Janegitz, coautor do trabalho.

Para encontrar novas utilizações para estes resíduos, os investigadores produziram células eletroquímicas com filamentos de PLA não condutores e sensores eletroquímicos com os filamentos condutores, que foram preparados através da adição de negro de fumo ao PLA. O negro de fumo é uma forma de carbono paracristalino resultante da combustão incompleta de hidrocarbonetos.

De acordo com os investigadores do projeto, a produção dos filamentos é relativamente simples, facilitando um processo que é um bom exemplo da chamada economia circular, na qual os resíduos gerados numa atividade económica são transformados num recurso para a implementação de outra atividade, em vez de serem tratados como um problema com impacto no ambiente.

O Instituto de Investigação Tecnológica (IPT) demonstrou que “beber café de uma cápsula pode ser até 14 vezes mais prejudicial para o ambiente do que prepará-lo com um filtro de papel”. Embora fabricantes e consumidores optem cada vez mais por cápsulas reutilizáveis e a reciclagem das versões de alumínio, “predomina a eliminação pura e simples, sobretudo no caso das cápsulas de plástico”, conclui o artigo académico.

No promissor mercado do café, que projeta um aumento nas vendas no retalho num valor atual CAGR (taxa de crescimento anual composto) de 2% entre 2022 e 2027, para 677 milhões de euros - sendo o valor constante CAGR -1% em 2022 -, a economia circular é a chave para um crescimento sustentado. E deve predominar não só na produção deste exclusivo produto, mas sobretudo nos vários desenvolvimentos de futuro a nível de embalagens de café.

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